VITOR HUGO BATISTA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Anúncios como “Receita azul, branca e amarela no precinho” e “Atestado médico 100% válido” estão sendo divulgados no X (antigo Twitter), direcionando pessoas para grupos no WhatsApp e Telegram onde vendem atestados médicos e receitas falsas, a partir de R$ 40 para todo o Brasil.
Segundo um estudo de Ergon Cugler, da FGV e integrante do DesinfoPop, há pelo menos 31 perfis ativos no X oferecendo esse tipo de serviço.
Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo dizem que tanto os vendedores quanto os compradores podem enfrentar processos criminais. Quem compra também corre riscos como automedicação e até demissão por justa causa.
Os perfis no X oferecem desde receitas para remédios controlados, laudos e exames, até atestados para afastamento do trabalho com CID, carimbo e CRM válidos, além da venda direta de medicamentos que pedem prescrição médica. O X não respondeu até a publicação do texto.
O Telegram afirma que a venda ilegal de medicamentos controlados e documentos médicos falsos é proibida nos termos de serviço e que esses conteúdos são removidos quando identificados. A plataforma usa inteligência artificial e denúncias dos usuários para monitorar essas ações.
Já o WhatsApp afirma que não permite o uso do aplicativo para atividades ilegais e desativa contas que violam suas regras. Usuários podem denunciar comportamentos inadequados nas conversas.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) alerta que emitir atestados sem consulta médica é uma infração ética grave. Para emitir esses documentos, o médico deve atender pessoalmente o paciente e avaliar seu caso.
Alguns vendedores alegam ajudar pessoas que não podem pagar consultas médicas ou desejam um descanso no trabalho. A reportagem conversou com um grupo que mostra um alto nível de organização, com tabelas de preços divididas por categorias em planilhas.
São vendidos anabolizantes, remédios para emagrecimento como Mounjaro, peptídeos e medicamentos controlados como Ritalina, Venvanse e Rivotril, tudo sem prescrição médica.
Segundo Luciana Canetto, farmacêutica e presidente do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo, usar remédios sem orientação médica pode esconder doenças, atrasar diagnósticos e causar intoxicações.
Ela destaca que muitos desses medicamentos exigem acompanhamento rigoroso, e sem isso, há risco de dependência, efeitos colaterais sérios e até complicações fatais.
Bárbara Gobira, professora do curso de farmácia da Wyden, acrescenta que os perigos incluem alergias e problemas cardíacos e respiratórios, além de sedação e confusão mental causadas por doses erradas.
Nos grupos do Telegram, vendedores pedem dados pessoais completos, o tempo de afastamento desejado, até o nome da empresa para qual o atestado será apresentado. Também informam preços, formas de pagamento e prazos para entrega.
Os administradores desses grupos compartilham depoimentos de compradores que dizem ter conseguido usar os atestados no trabalho ou comprar medicamentos controlados, mostrando prints e comprovantes para passar confiança.
Em um perfil no X, uma tabela com preços de atestados falsos mostrava R$ 40 por um dia de afastamento, R$ 50 por dois dias, R$ 60 por três dias, com valores crescendo até R$ 130 para afastamentos de 11 a 14 dias.
O advogado criminalista Caio Ferraris, da FVF Advogados, explica que os crimes dependem da atuação dos envolvidos e da autenticidade dos documentos. Se o médico participa conscientemente, pode ser falsidade ideológica, quando o documento é verdadeiro mas o conteúdo é falso.
Já o uso indevido dos dados médicos pode ser qualificável como falsidade documental ou falsificação material.
Além disso, Caio Ferraris alerta que envolvidos podem responder por associação criminosa e crimes contra a saúde pública.

