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sexta-feira, 12/06/2026

Rede que leva cubanos ao Brasil pela Amazônia enfrenta crise humanitária

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Uma rota ilegal de migração de cubanos pela Amazônia tem sido alvo das autoridades brasileiras. A entrada acontece de várias formas, com alguns atravessando a pé a ponte que conecta Lethem, na Guiana, a Bonfim, em Roraima, enquanto outros utilizam barcos clandestinos para cruzar o rio que separa os dois países.

Desde o início do ano até o dia 11 de junho, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) resgatou 225 cubanos em situação irregular durante operações na BR-401, rodovia que liga o Brasil à Guiana. Em anos anteriores, o número era cerca de 60 cubanos por ano. No último dia 11, durante patrulhamento, a Polícia Militar de Roraima (PMRR) resgatou 35 cubanos que faziam a travessia pela ponte dos Macuxis do Cantá, região norte de Roraima, em direção à capital Boa Vista, marcando o segundo resgate em poucos dias.

Beatriz, cubana de 29 anos, relatou ao Estadão as dificuldades enfrentadas em seu país: falta de luz, água, gás, comida e salários baixos. Cuba enfrenta uma crise sem precedentes após um bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos neste ano, que causou apagões e redução nos serviços de saúde. Beatriz planeja trabalhar em Florianópolis para juntar dinheiro e trazer seus filhos, que ficaram em Cuba com a avó.

A polícia informou que os coiotes cobram cerca de US$ 10 mil (aproximadamente R$ 51 mil) por pessoa para organizar todo o trajeto, incluindo transporte terrestre, travessia da fronteira, hospedagens temporárias e passagens aéreas dentro do Brasil. Desde o início do ano, 16 coiotes foram presos pela PRF.

Nesta quinta-feira, 11, a Polícia Federal lançou a Operação Conexão Norte para desmantelar o grupo investigado por promover migração ilegal, cumprindo mandados em Boa Vista e Bonfim, sem prisões. Isaías Magalhães, chefe de comunicação da PRF em Roraima, afirmou que há uma rede organizada por brasileiros, guianenses e cubanos para coordenar a viagem.

Estamos diante de uma crise humanitária, disse Isaías, destacando a exploração econômica das pessoas durante todo o trajeto. Beatriz descreveu o esquema dos coiotes como horrível.

O percurso geralmente começa com um voo de Havana para Georgetown, seguido por viagem de carro até a fronteira em Lethem/Bonfim. A BR-401 liga Bonfim a Boa Vista em cerca de 125 quilômetros e é o próximo trecho da rota. Veículos alugados transportam grupos de até 12 pessoas, apesar de serem projetados para até cinco passageiros, gerando cerca de R$ 10 mil a R$ 15 mil por viagem para os motoristas.

Muitos motoristas presos pela PRF são brasileiros sem histórico em redes migratórias, embora alguns tenham antecedentes criminais. Para evitar as autoridades, eles frequentemente abandonam a rodovia e seguem por estradas de terra em alta velocidade, causando acidentes e mortes, com dois cubanos falecendo em 2025 após capotamento em fuga.

Recentemente, para escapar da fiscalização, os coiotes têm abandonado migrantes aproximadamente 10 quilômetros antes de Boa Vista.

Sem comer há dois dias

A rede de apoio não para na fronteira. Durante a Operação Rota Segura, em 8 de junho, a PRF encontrou 61 cubanos alojados em uma casa em Cantá, que servia como ponto de apoio enquanto aguardavam transporte ou passagens para outras regiões.

Foi registrado o maior resgate humanitário da PRF em Roraima, com 108 cubanos em condições precárias, incluindo adultos, idosos e crianças, muitos sem se alimentar por pelo menos dois dias. Cinco brasileiros suspeitos de atuarem como coiotes foram presos em flagrante.

As vítimas foram encaminhadas para abrigos da Operação Acolhida, que já atende venezuelanos na região.

Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, houve 41,9 mil pedidos de refúgio de cubanos no Brasil em 2025, quase o dobro do ano anterior, que somou 22,3 mil, e já foram registrados 13,4 mil pedidos em 2026.

Geografia favorece rota

Autoridades afirmam que a geografia facilita a escolha da rota, pois a proximidade entre Cuba, Guiana e Suriname permite voos comerciais para a região. A fronteira entre Brasil e Guiana possui trechos vulneráveis e está conectada a uma rodovia asfaltada que leva rapidamente a Boa Vista.

Outra rota menos usada é voar de Cuba para Suriname e entrar no Brasil pelo Amapá.

Após chegarem ao Brasil, os migrantes conseguem comprar passagens para voos domésticos usando documentos de seus países de origem, com destino final geralmente nas regiões Sudeste e Sul.

João Jarochinski, pesquisador em relações internacionais e migrações na Amazônia, explicou que o Brasil permanece como um dos poucos países onde migrantes podem permanecer legalmente enquanto aguardam análise para refúgio ou documentação.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que monitora os fluxos migratórios com sistemas integrados e base de dados atualizada mensalmente, atuando junto a órgãos públicos para combater o contrabando de migrantes e a ação de grupos criminosos que promovem o transporte irregular.

O Itamaraty e as embaixadas de Cuba e Guiana não comentaram o assunto.

Estadão Conteúdo

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