BÁRBARA SÁ
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O número de contratos de namoro formalizados cresceu muito, especialmente entre pessoas que voltam a se relacionar depois dos 50 anos, como divorciados e viúvos. Em 2025, foram registrados 241 contratos, o maior número desde que esse tipo de documento passou a ser contabilizado pelo Colégio Notarial do Brasil (CNB/CF).
Em 2016, eram apenas 26. O aumento acumulado até agora é de 827%. Comparado a 2022, quando foram feitos 93 contratos, a alta é de 159%.
Um contrato de namoro é um documento onde o casal declara que está em uma relação afetiva, mas sem intenção de formar uma união estável naquele momento. Embora não impeça o reconhecimento judicial da união estável, serve como uma prova da vontade das partes.
Essa tendência acompanha mudanças nas famílias brasileiras. Dados do IBGE mostram que quase um terço dos casamentos atuais incluem pelo menos uma pessoa que já foi divorciada ou viúva. Essa porcentagem subiu de 13,5% em 2004 para 31,1% em 2024. Além disso, cerca de 30% dos divórcios no Brasil ocorrem entre pessoas acima de 50 anos, o chamado divórcio cinza.
Mais do que sinal de desconfiança, o aumento desse contrato mostra que casais estão falando sobre dinheiro logo no começo do relacionamento.
Quem recomeça um relacionamento após separação ou viuvez geralmente lida com situações diferentes das do primeiro casamento. Bens como imóveis, investimentos, empresas e filhos de relações anteriores entram na conversa, aumentando preocupações sobre herança e patrimônio.
Eduardo Calais, presidente do CNB/CF, destaca: “Observamos que as pessoas que procuram esse contrato já passaram por casamento ou união estável, possuem patrimônio e filhos, e agora iniciam uma nova fase da vida afetiva. O contrato dá transparência e segurança jurídica, protege direitos e evita conflitos futuros tanto para o casal quanto para os herdeiros.”
A psicanalista e pesquisadora de relacionamentos Carol Tilkian, colunista da Folha, analisa que a expansão do uso do contrato mostra que os casais tentam trazer conversas sobre dinheiro para o início da relação, algo que antes só acontecia em crises ou separações.
Ela comenta: “Estamos tentando normalizar falar sobre dinheiro desde o começo. O contrato é uma forma de iniciar essa conversa enquanto tudo vai bem.” Muitos casais vivem anos juntos sem formalizar casamento ou união estável, dividindo despesas e planos, mas dúvidas patrimoniais surgem em caso de separação.
Para Carol, as discussões sobre dinheiro geralmente envolvem emoções mais profundas, e o contrato ajuda a definir limites antes que surjam conflitos.
Segundo ela, a principal razão para o contrato é proteger patrimônio, mais do que mudar a forma como os brasileiros veem o compromisso afetivo.
A preocupação também é comum em quem já passou por disputas patrimoniais em divórcios ou inventários.
João Victor Gomes de Siqueira, advogado especialista em processo civil, explica que muitos clientes que buscam o contrato acabaram de passar por separação ou têm pendências patrimoniais de relações anteriores. “Eles querem evitar ter que dividir novamente algo que já foi partilhado e buscam segurança deixando claras as intenções de ambos no relacionamento.”
Siqueira também percebe um aumento na procura por adultos mais jovens. Segundo ele, a busca é para diminuir incertezas sobre o reconhecimento judicial da união estável.
Ele ressalta que o contrato não garante proteção patrimonial automática, pois o Judiciário pode entender que há união estável mesmo havendo um contrato, dependendo das circunstâncias.
Apesar do crescimento na última década, o contrato de namoro ainda não é muito conhecido, diz Calais. Ele prevê que a procura continuará crescendo à medida que mais brasileiros queiram organizar patrimônio e sucessão antes de iniciar novos relacionamentos.
Segundo ele, “As pessoas vivem mais, permanecem ativas por mais tempo e formam novas relações em diferentes fases da vida. Isso deve aumentar a demanda por instrumentos que tragam segurança jurídica para essas novas configurações familiares.”

