As famílias brasileiras leem para crianças de até cinco anos quatro vezes menos do que a média mundial, segundo estudo internacional sobre aprendizagem e bem-estar na primeira infância divulgado em 5 de maio.
Nos países participantes, 54% das famílias leem para as crianças pelo menos três vezes por semana. No Brasil, apenas 14% cumprem essa frequência. Cerca de 53% das famílias brasileiras disseram nunca ou quase nunca fazer leitura para as crianças.
Apesar disso, as crianças brasileiras apresentam desempenho similar à média global em habilidades de linguagem e empatia. O desempenho cai na área de numeracia, que envolve compreensão e aplicação de conceitos matemáticos básicos. Meninos pretos, pardos e indígenas de famílias com baixa renda têm maiores dificuldades em quase todas as áreas estudadas.
Marina Chicaro Fragata, diretora de políticas públicas da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, destaca que os desafios de aprendizagem aparecem já na pré-escola, e as desigualdades socioeconômicas, de gênero e raça precisam ser enfrentadas desde cedo.
Além disso, a frequência de caminhadas e brincadeiras ao ar livre também é menor no Brasil. Enquanto 46% das famílias no mundo realizam essas atividades com regularidade, no Brasil apenas 37% o fazem. Sobre a comunicação, 56% das famílias brasileiras conversam com as crianças sobre seus sentimentos de três a sete dias por semana, contra 76% na média mundial. Já o uso diário de dispositivos digitais em casa é maior no Brasil (50,4%) comparado à média mundial (46%).
Principais pontos do estudo
- Desigualdades socioeconômicas causam diferenças no aprendizado de numeracia e leitura antes do ensino fundamental.
- Baixo nível socioeconômico está associado a menores habilidades cognitivas, especialmente memória de trabalho.
- Meninos pretos, pardos e indígenas de baixa renda sofrem os maiores impactos no desenvolvimento.
- Famílias com menor renda oferecem menos estímulos, resultando em menos práticas de leitura compartilhada.
- O contexto social influencia o desenvolvimento socioemocional das crianças, afetando identificação de emoções e comportamento pró-social.
O Brasil foi o único país latino-americano a participar do estudo, que incluiu 2.598 crianças de 210 escolas públicas e privadas nos estados do Ceará, Pará e São Paulo. A pesquisa foi conduzida pelos pesquisadores Mariane Koslinski e Tiago Bartholo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Também participaram do levantamento oito outros países: Azerbaijão, Bélgica, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Holanda, Malta e Reino Unido.
