VINICIUS SASSINE E THAÍSA OLIVEIRA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
Um mesmo fundo de investimento chamado Gold Style realizou operações financeiras com uma fintech apontada como banco paralelo da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) e também com a empresa ligada ao financiamento do filme “Dark Horse”, que retrata a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Esse fundo também foi utilizado em movimentações ligadas a debêntures privadas e sigilosas que apresentam suspeitas de irregularidades.
O Gold Style Fundo de Investimento em Direito Creditório é gerido pela Reag Trust, uma empresa envolvida em uma rede financeira que utilizava o Banco Master para fraudes em carteiras de crédito e ampliação artificial de ativos, segundo investigações da Polícia Federal. O Banco Master foi encerrado pelo Banco Central em novembro, enquanto a Reag Trust teve suas operações suspensas em janeiro.
Informações públicas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) indicam que o fundo Gold Style foi criado em abril de 2020 com um investimento inicial de R$ 480,1 milhões. Em maio de 2024, o patrimonio líquido do fundo cresceu para R$ 1,84 bilhão e continua em funcionamento normal, conforme dados da CVM.
Os proprietários e beneficiários do fundo são desconhecidos, um tipo de investimento usado pela Reag e pelo Banco Master para fraude e expansão artificial de ativos, segundo a Polícia Federal.
Procurada, a Reag Trust não quis comentar sobre o assunto.
Os dados das movimentações do Gold Style foram obtidos pela Folha a partir de documentos sigilosos elaborados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão responsável pelo combate à lavagem de dinheiro.
Esses relatórios são baseados em informações enviadas por instituições financeiras que indicam grandes movimentações ou indícios de crimes financeiros. A reportagem analisou documentos relacionados ao Banco Master, à Reag Trust e à fintech BK Bank, esta última suspeita de operar para o PCC.
Os documentos apontam que o fundo Gold Style foi usado para ocultar os verdadeiros beneficiários das operações, dificultando a identificação das pessoas envolvidas e o rastreamento das transações por meio de camadas complexas de operações financeiras.
Relatórios mostram que a BK Bank transferiu R$ 133,6 milhões ao Gold Style em 2023 e outras transações de R$ 12,9 milhões em 2024 e 2025.
A BK Bank é investigada na Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração do PCC no mercado financeiro. A Polícia Federal, a Receita Federal e o Ministério Público de São Paulo indicam que essa fintech oferecia uma estrutura para que organizações criminosas movimentassem dinheiro de forma opaca, por meio de contas que misturavam diversos clientes, dificultando a investigação.
Esse sistema permitia que empresas fantasmas geridas por grupos criminosos movimentassem recursos sem transparência, incluindo distribuidoras de combustíveis envolvidas em fraudes, segundo as investigações da Carbono Oculto. A empresa Aster Petróleo movimentou pelo menos R$ 311,7 milhões via o fundo Gold Style, conforme dados do Coaf.
A BK Bank não retornou o contato da reportagem.
Outro relatório menciona transferências frequentes entre o fundo Gold Style e a empresa Entre Investimentos e Participações, totalizando cerca de R$ 20 milhões.
A Entre foi usada por Daniel Vorcaro, ex-proprietário do Banco Master, para repassar recursos ao filme “Dark Horse”, que aborda a vida de Jair Bolsonaro e conta com participação dos filhos do ex-presidente, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é pré-candidato presidencial.
Flávio Bolsonaro procurou Vorcaro para garantir repasses do antigo banqueiro no valor de R$ 134 milhões, segundo o site Intercept Brasil. Até o momento, foram transferidos R$ 61 milhões, parte deles direcionada da Entre Investimentos para o fundo Havengate.
Em nota, o grupo Entre afirmou que suas operações cumprem as normas e regulamentos do setor financeiro, destacando seu compromisso com a transparência e a conformidade legal e sua disponibilidade para colaborar com autoridades sempre que necessário.
Além disso, o Gold Style esteve envolvido em transações de debêntures privadas, em que a Reag desempenhou funções como emissora, escrituradora ou agente fiduciário. Foram identificadas 11 debêntures totalizando R$ 3,6 bilhões, conforme comunicado da Bolsa de Valores de São Paulo (B3) ao Coaf.
Debêntures são títulos de dívidas emitidos por empresas para captar recursos e oferecem direitos de crédito aos investidores. Todas as debêntures mencionadas são privadas e sigilosas, impossibilitando identificar os responsáveis pelas operações.
O comunicado também detectou padrões similares em emissões de debêntures, incluindo valores, datas e remunerações parecidas, transações entre fundos e bancos, contratos liquidados com valor zero e discrepâncias de preços.
Totalmente, as transações envolveram 12 fundos — incluindo o Gold Style — e três bancos: Master, Pleno e Digimais. O Pleno, de um ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima, foi encerrado pelo Banco Central em fevereiro. O Digimais, associado ao bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, enfrenta risco de liquidação.
A defesa de Vorcaro não quis se manifestar. O Digimais informou que não comentar, pois está em processo de venda. O Pleno não respondeu aos questionamentos enviados por email.
Em nota, a B3 confirmou que diariamente repassa informações sobre irregularidades à sua área de autorregulação, a BSM, e ao Coaf.
Relatórios do Coaf também mostram movimentações entre fundos usados na emissão de debêntures, como Gold Style e Máxima, este último ligado ao Banco Master. Outro registro indica transação de R$ 180 milhões entre Gold Style e a Super Empreendimentos, empresa ligada financeiramente a Vorcaro, com bens familiares associados a esse empreendimento.

