GUSTAVO SOARES
SEUL, COREIA DO SUL (FOLHAPRESS)
Perto de uma área onde crianças coreanas experimentam diferentes profissões como cantor de k-pop, operador de escavadeira e caixa de supermercado, há uma atração que se destaca pela sua especificidade.
Aqui, usando um headset de realidade virtual, os visitantes são levados para uma versão em 3D de uma fábrica de semicondutores. O objetivo é aprender as etapas básicas de um processo industrial muito importante para a economia da Coreia do Sul.
Essa experiência está no Korea Job World, um centro que orienta jovens e estudantes sobre profissões, mostrando a preocupação do país em preparar trabalhadores para uma economia cada vez mais dominada por inteligência artificial e automação.
A preocupação é justificada. A Coreia do Sul ocupa um papel fundamental em setores-chave da transformação tecnológica global, especialmente na indústria de chips.
O país abriga empresas como Samsung e SK Hynix, protagonistas da atual corrida global por infraestrutura computacional. Mas enfrenta desafios como envelhecimento da população, baixa taxa de natalidade, falta de mão de obra e competição crescente da China.
Diante disso, aumentar a qualificação dos trabalhadores é uma estratégia do governo sul-coreano para melhorar a produtividade com o uso da inteligência artificial, que hoje tem impacto mais visível no mercado financeiro do que na economia real.
Esses esforços são vistos em feiras de carreiras, universidades e centros de pesquisa. Na Sungkyunkwan University (SKKU), por exemplo, há projetos que criam cursos focados na aplicação de IA em diversas áreas. Institutos como Koreatech e Kaist, conhecido como o MIT coreano, investem em pesquisa e treinamento para a automação industrial.
Na Koreatech (Universidade de Tecnologia e Educação da Coreia), os estudantes treinam em ambientes que simulam condições reais de trabalho, usando realidade virtual, realidade mista e laboratórios especializados.
Em uma das salas visitadas, os alunos aprendem a fabricar semicondutores em uma sala limpa, ambiente controlado para evitar partículas que podem prejudicar a produção dos chips.
Ter essa infraestrutura numa universidade é notável, pois reproduz condições normalmente encontradas só em fábricas industriais muito avançadas.
O instituto, que tem um dos melhores índices de emprego do país, oferece também uma plataforma de ensino remoto com cursos especializados em IA e automação, que já capacitou 116 mil pessoas.
No Kaist (Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia), em Daejeon, a 160 km ao sul de Seul, pesquisadores criam um sistema chamado Kairos para coordenar ambientes industriais altamente automatizados.
Em uma fábrica miniatura no campus, diferentes robôs se movem sincronizados em esteiras, corredores e prateleiras, transportando peças e realizando tarefas sem colisões nem paradas.
O sistema usa IA para monitorar operações em tempo real, coordenar o trabalho, identificar problemas e emitir alertas de segurança. Numa demonstração, o software para parte da operação ao detectar um trabalhador sem equipamento de proteção em área restrita.
Sungwook Lee, professor de engenharia industrial da Kaist, disse que testes iniciais mostram aumentos de eficiência de até 20% e redução do número de robôs necessários para algumas tarefas.
O objetivo é criar as chamadas “dark factories”, fábricas automatizadas que funcionam com pouca intervenção humana.
Jinhyeok Park, responsável pelo projeto, compara o sistema a um maestro. “A ideia é comandar todos os elementos da fábrica”, contou.

