Por Anna Vitória de Carvalho
Sentada à mesa de jantar, com cabelos longos e despenteados, Rebeca observa seu pai. Frederico, que sempre gostou de desenhar, segura uma cartolina. Com apenas 8 anos, a vontade de brincar e correr era maior que tudo, mesmo sentindo uma dor no calcanhar que não passava. Ela sabia que estava doente e precisava tomar uma decisão.
A escolha parecia simples: “Qual opção me deixará brincar de novo mais rápido?”. No papel, o pai desenhou dois pés. Um mostrando a parte externa, levemente inchada, como era normal. O outro revelava o interior: veias, músculos e o osso, o calcâneo direito, com um tumor, várias bolinhas redondas e marcadores de agressividade.
Diagnóstico
Após meses de dúvidas, o diagnóstico chegou. Os pais pensavam que a agitação da criança era só excesso de energia, mas a fisioterapia e o gesso não ajudaram. Foi a ressonância que mostrou o tumor no osso, e a biópsia no SARAH confirmou a gravidade.
Frederico e sua esposa, Fernanda, foram informados que o tumor tinha grande chance de espalhar. Diante da gravidade, disseram que Rebeca tinha pouco tempo. Na cartolina, o desenho mostrava opções: retirar só o osso afetado, o que poderia atrofiar o pé e exigir muletas ou andador; ou amputar parte da tíbia, usando prótese.
“A gente nem lembra”
Débora, irmã do meio, tinha 5 anos e via o câncer como “uma gripe mais forte”. Não compreendia a seriedade, mas lembrou que após a conversa sobre a cartolina, Rebeca foi ao quarto chorar sozinha.
Enquanto a mãe enfrentava a doença da filha e o oitavo mês de gravidez da mais nova, Raquel, Débora ficou com as avós, sentindo falta dos pais devido ao hospital. Hoje, diz que não vê limitações na irmã. “A gente nem lembra no dia a dia que ela é amputada. Ela faz tudo.”
Tratamento
Aos 26 anos, Rebeca passa pelos corredores da Biblioteca Nacional, onde faz estágio, com a mesma firmeza com que decidiu seu rumo na mesa de jantar. Estudante de Biblioteconomia na UnB, ela usa a prótese sem medo ou vergonha, comuns à juventude.
O tratamento durou entre seis meses e um ano, mas deixou marcas. Com a imunidade baixa, quase não saía de casa. Certa vez, no estacionamento de um supermercado, caiu em prantos no carro, exausta emocionalmente, dizendo à mãe que preferia ir embora a continuar o tratamento.
No dia seguinte, veio a notícia: a amputação eliminara as células cancerígenas. Não haveria mais quimioterapia, só acompanhamento por dez anos para garantir que o câncer não voltasse.
Vida rápida
A compreensão do que aconteceu demorou. Após dias internada, ao chegar em casa, viu sobre a mesa a liturgia de um velório. Era da tia-avó Vera, que também lutava contra o câncer e não resistiu. O choque mostrou a dureza que o desenho do pai tentou suavizar.
Em 2019, já adulta, Rebeca passou por cirurgia para reparar o osso que continuou crescendo. A recuperação foi rápida, refletindo a naturalidade que ela escolheu para a vida.
Para ela, tirar a prótese para entrar na piscina ou andar na praia nunca foi tabu, mas algo natural. Rebeca vê sua vitória contra o câncer como um privilégio que mudou sua forma de enxergar a vida.
