Cláudia Collucci
Folhapress
Milhares de garotas e mulheres sofrem com dores fortes durante a menstruação e dores na região do baixo ventre, muitas desde a primeira menstruação. No entanto, o Sistema Único de Saúde (SUS) registra apenas uma pequena parte desses casos. A maioria ainda permanece sem ser oficialmente reconhecida.
Um estudo feito pela Vital Strategies Brasil em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) usou inteligência artificial para identificar queixas relacionadas a dores menstruais em uma quantidade 21 vezes maior do que a registrada oficialmente nos códigos de doenças.
A pesquisa, financiada pelo Instituto Alana, analisou dados de mais de 469 mil meninas e mulheres entre 10 e 49 anos atendidas na rede pública de saúde do Recife entre 2016 e 2025.
Foram cruzadas informações de atendimentos em postos de saúde, internações hospitalares e notificações de violência para entender como dores menstruais e pélvicas são registradas — ou muitas vezes, ignoradas — nos prontuários médicos.
Quando os pesquisadores verificaram apenas os códigos oficiais da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), encontraram registros de dor menstrual ou pélvica em somente 0,5% das pacientes, totalizando 1.906 mulheres.
Mas ao usar uma análise semântica com inteligência artificial que interpreta os textos escritos pelos profissionais de saúde nos prontuários, o número saltou para mais de 41 mil casos, aproximadamente 9% da amostra estudada.
O estudo também apontou que as informações registradas são incompletas. Em menos de 5% dos casos havia dados sobre a intensidade, frequência ou duração da dor, informações importantes para orientar o tratamento.
Essas pacientes procuram muito os serviços de saúde. Mulheres com registro de dor pélvica tiveram em média 24 atendimentos no período analisado, quase cinco vezes mais do que aquelas sem histórico de dor.
Sofia Reinach, gerente de saúde e líder da iniciativa de endometriose, dor pélvica e saúde menstrual do Instituto Alana, afirma: “Elas buscam ajuda várias vezes, mas suas queixas não são registradas nem acompanhadas como deveriam”.
A pesquisa também mostrou um descompasso entre o que as pacientes relatam e o que é usado para definir o tratamento. Termos como endometriose e adenomiose aparecem nas queixas das pacientes, mas são pouco mencionados nas avaliações clínicas e planos de tratamento.
Na prática, isso indica que as dores são reconhecidas, mas muitas vezes não há um tratamento adequado imediatamente na atenção básica. Sofia Reinach comenta: “Existem recomendações para tratar a dor na atenção primária, incluindo contraceptivos hormonais, mas os prontuários têm mais registros de remédios para gases e prisão de ventre do que para tratamentos específicos de dor pélvica”.
Luciana Albuquerque, secretária municipal de Saúde do Recife, destaca que o estudo ajuda a mostrar um problema que foi gasto ao longo dos anos nos serviços de saúde. “Precisamos integrar a rede para mudar essa cultura que minimiza a dor”, diz.
Ela planeja usar os resultados para treinar mais de 3.000 profissionais da atenção básica, associando esse treinamento a um novo protocolo da cidade para planejamento sexual e reprodutivo.
O objetivo é que a atenção básica consiga resolver a maioria dos casos e encaminhe corretamente os que demandam níveis superiores de atendimento, explica Luciana Albuquerque.
O município já oferece recursos que podem melhorar o diagnóstico e tratamento, como o implante contraceptivo Implanon nas unidades básicas, ultrassom móvel e ambulatórios especializados no Hospital da Mulher e policlínicas.
A estudante Cecília Vieira, 22 anos, usuária de plano de saúde no Recife, recebeu o implante pelo SUS em fevereiro e relata que as dores incapacitantes que ela sentia desde os 14 anos praticamente desapareceram.
Ela conta que chegava a desmaiar devido à dor e faltava às aulas. Embora tenha tentado anticoncepcionais indicados pelo plano de saúde, não se adaptou devido aos efeitos colaterais como náusea e vômitos.
A médica sugeriu o implante, mas o plano não cobria o contraceptivo que custa cerca de R$ 2.000. “Era muito caro para mim. Foi quando fiquei sabendo que o SUS oferecia e fui buscar”, relata.
Luciana Albuquerque relata que o município também aumentou a capacidade cirúrgica do Hospital da Mulher após um acordo com o Ministério da Saúde que disponibiliza R$ 44 milhões adicionais por ano e possibilita cerca de 5.000 cirurgias extras anualmente.
Pedro de Paula, diretor-executivo da Vital Strategies Brasil, afirma que a metodologia do estudo mostra como os grandes volumes de dados do SUS podem ser transformados em informações úteis para a gestão pública.
Ele destaca que o uso conjunto de bases do SUS com linguística computacional e inteligência artificial já desperta interesse do Ministério da Saúde e pode ser expandido para outras regiões do país.
O estudo também encontrou uma ligação entre dor e violência. Meninas e mulheres que têm registros de dor pélvica e histórico de violência apresentam prontuários ainda mais incompletos apesar da maior gravidade clínica.
Esse grupo realizou em média 35 visitas à atenção primária, cerca de 50% a mais do que aquelas com dor sem histórico de violência. Adolescentes entre 10 e 14 anos são um dos grupos mais vulneráveis.
Pedro de Paula explica que a combinação de sofrimento físico, violência e problemas mentais ajuda a entender a gravidade da situação. “Estamos falando de meninas que passam anos buscando atendimento sem diagnóstico adequado, o que prejudica estudos, saúde mental, vida social e futuro dessas jovens”.
Sofia Reinach estima que entre 35% e 45% das meninas enfrentam dores menstruais incapacitantes. Ela alerta que a primeira menstruação tem acontecido cada vez mais cedo, muitas vezes aos 10 ou 11 anos, e que a dor menstrual está afastando essas meninas da escola e da convivência social.
Atualmente, o tempo médio para o diagnóstico de endometriose é de sete a dez anos, tanto no Brasil quanto no exterior.
Para combater o problema, o Instituto Alana está preparando um programa focado em saúde menstrual, dor pélvica e endometriose, que inclui financiamento para pesquisa, fortalecimento de políticas públicas e campanhas de conscientização.
A organização dialoga com o Ministério da Saúde e a prefeitura do Recife para criar uma linha de cuidado especialmente para meninas e adolescentes com dor crônica. Sofia Reinach destaca: “Por muito tempo a dor menstrual foi vista como exagero ou algo normal, mas se essas queixas não constam nos dados oficiais, elas deixam de guiar políticas públicas, capacitação profissional e organização do cuidado”.
