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domingo, 26/04/2026

alta do ouro, juros altos e dívidas elevadas impulsionam penhor na Caixa

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TAMARA NASSIF
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Desde que começou a pandemia, a aposentada Clarice Almeida, 72 anos, passou a ver suas joias de ouro de forma diferente.

Com dívidas nos cartões de crédito, ela usou seus anéis, pulseiras e correntes como solução financeira. Mas, ao invés de vender as peças, Clarice decidiu penhorá-las na Caixa Econômica Federal, que é a única instituição no Brasil autorizada a oferecer esse tipo de empréstimo.

“Eu estava cheia de dívidas e não conseguia pagar as contas. Sempre tive muitas joias e uma amiga me falou que penhorar na Caixa de Osasco era uma boa opção, com juros baixos. Fiz o penhor e gostei, os juros são realmente menores”, contou ela por chamada de vídeo.

O penhor funciona como um empréstimo com garantia: o cliente leva um bem de valor, como joias, pratarias, relógios ou canetas com metais preciosos, para uma agência, onde um especialista avalia o valor. A Caixa pode emprestar até 100% do valor da peça, e o dinheiro é liberado na hora.

O cliente paga juros em torno de 2,19% ao mês, com contratos de até seis meses, que podem ser renovados. Os bens ficam guardados no cofre da Caixa até que a dívida seja paga. Se o contrato não for quitado ou renovado, os itens são vendidos em leilão.

No último ano, o preço do ouro subiu mais de 60%, alcançando valores recordes históricos. Em janeiro, por exemplo, o ouro chegou a ser cotado a US$ 5.600 por onça, o equivalente a cerca de R$ 900 por grama, segundo Mauriciano Cavalcante, especialista da Ourominas.

Embora a cotação tenha caído para US$ 4.712 por onça devido a conflitos no Oriente Médio, a tendência de alta a curto prazo permanece, podendo alcançar novamente os valores recordes anteriores.

O ouro é considerado uma reserva de valor em tempos de instabilidade econômica e política.

O aumento de preço começou no final de 2022, quando a guerra na Ucrânia se intensificou e a Rússia teve suas reservas internacionais confiscadas. Em 2023, a política comercial instável do ex-presidente Donald Trump fez o ouro deixar de ser apenas um porto seguro para se tornar um ativo essencial para investimentos.

O impacto das tarifas comerciais abalou a confiança no dólar e nos títulos americanos, considerados os mais seguros do mundo, levando o preço do ouro de US$ 3.343 em 1º de abril ao pico de US$ 5.600.

Com o ouro valorizado, as joias ganharam mais valor, aumentando a procura pelo penhor. A Caixa informou que seu saldo na modalidade chegou a R$ 3,2 bilhões em 2025, crescimento de 31,24% em relação ao ano anterior. A valorização do ouro é apontada como o principal motivador desse aumento.

Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos, afirma que muitas pessoas começaram a usar suas joias guardadas para conseguir crédito rápido sem precisar vender os bens. “A alta do ouro permite que o cliente consiga mais dinheiro com a mesma garantia, melhorando o custo-benefício do empréstimo.”

Outro motivo é o aumento do endividamento das famílias, que atingiu 80,4% da população, recorde histórico segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).

A inadimplência também cresceu e agora atinge 29,6% das famílias endividadas, influenciada pela taxa Selic em seu maior patamar em quase 20 anos. Atualmente em 14,75% ao ano, a Selic influencia todas as taxas de juros no mercado, desde o cartão de crédito até empréstimos pessoais, fazendo com que o penhor se torne uma opção vantajosa.

Trotta destaca que o penhor normalmente tem juros menores que outras linhas tradicionais, sendo uma escolha competitiva para os clientes.

Além disso, o penhor não exige análise de crédito detalhada, basta oferecer o bem como garantia. “É uma porta de entrada para quem tem nome negativado ou dificuldade de aprovar outras linhas de crédito”, explica o especialista.

Por outro lado, o crescimento do penhor pode indicar que as famílias estão mais endividadas, buscando alternativas de crédito fora do radar tradicional, pois o penhor tem garantia real e não exige análise de score de crédito, refletindo uma pressão financeira oculta.

Os juros de 2,19% ao mês do penhor são inferiores às médias dos empréstimos consignados públicos (2,11%) e do INSS (1,76%), segundo dados do Banco Central. O consignado privado começa em 1,63% ao mês, mas pode chegar a uma média de 3,57%.

Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, recomenda o consignado para servidores públicos por ser uma boa opção, com parcelas descontadas direto no contracheque e baixo risco de inadimplência.

Ele também ressalta que o consignado não permite a renovação da dívida, diferente do penhor, mas continua sendo vantajoso devido à facilidade de obtenção, pois não exige bem dado como garantia.

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