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domingo, 07/06/2026

Agricultores do MST e ex-autônomos descobrem dignidade e renda no empreendedorismo rural

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Em Brasília

Por Ana Luisa Pereira, Isadora Carmona e Laura Cunha

Samuel Gomes Pereira era motoboy e tinha 21 anos quando decidiu trocar seu trabalho cansativo e perigoso por algo que lhe trouxesse paixão: a produção agrícola.

Essa mudança aconteceu em 2010, quando o Brasil cresceu 7,5% economicamente. Ele e outras 65 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) receberam lotes de terra no assentamento Canaã, em Brazlândia, Distrito Federal, perto de Brasília.

Dignidade

Em 2025, 14 anos depois, o assentamento foi oficialmente reconhecido e as famílias receberam do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra/DF) os contratos que comprovam a posse dos terrenos.

Para Samuel, isso significa dignidade.

“Antes eu não tinha onde morar, mas hoje tenho minha casa, minhas plantações e o apoio das comunidades ao nosso redor”, diz ele.

O assentamento fica na Bacia do Descoberto, que abastece mais da metade da população do Distrito Federal. A região sofreu com monocultura de eucalipto desde os anos 1970, o que prejudicou os recursos hídricos e a flora nativa.

Samuel relata que a ocupação pelos agricultores ajudou a recuperar a vegetação original do cerrado.

“Com os projetos de agrofloresta, conseguimos retirar a maioria dos eucaliptos e melhorar a qualidade do solo, que era pobre em nutrientes”, explica.

Da roça à feira

Todo sábado, Samuel viaja 47 quilômetros até a Feira da Ponta Norte, onde ele e outros produtores vendem alimentos orgânicos e garantem uma renda justa.

Além de frutas e hortaliças, também há crescimento na venda de ovos, geleias, conservas e queijos artesanais produzidos por famílias da região.

“Eu me sinto livre”, diz agricultora

Essa é a história de Armina Félix, moradora do assentamento 15 de Agosto, em São Sebastião, que transformou sua vida por meio da agricultura artesanal.

Antes autônoma, ela conta que a agricultura foi um ponto de virada: “Hoje me sinto livre, pois no trabalho autônomo o salário era instável, hoje tenho uma renda constante”.

Armina cultiva hortaliças desde 2011 e começou a ter renda fixa em 2018, com a produção de derivados do leite.

Ela atribui seu sucesso aos cursos e oficinas oferecidos pela comunidade e voluntários do MST, que a ajudaram a melhorar suas técnicas e a qualidade dos produtos.

Comunidade

Assim como Armina, o casal Francisca e Robin Mário da Cruz Ribeira, agricultores do assentamento Oziel Alves III, em Planaltina, também cresceram com a ajuda de cursos profissionalizantes.

Inicialmente a agricultura era para complementar a renda, mas depois Robin participou de cursos de Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA) e agrofloresta, organizados pela Associação de Produtos Agroecológicos (Aprospera).

Em 2017, o casal fundou a CSA Flor de Lótus, que passou de 16 para mais de 100 famílias, que apoiam diretamente os agricultores trocando alimentos orgânicos produzidos na região.

Mateus Castello Branco, co-agricultor da CSA desde 2018, acredita que essa iniciativa valoriza quem vive da agricultura e combate a produção industrial com agrotóxicos.

Profissionalização e valorização

Francisca (Nena) costumava produzir geleias e conservas apenas para presentear, mas após cursos da Aprospera decidiu se profissionalizar para ampliar seu negócio.

“No curso aprendi a padronizar e valorizar meus produtos, o que me ajuda a me destacar”, diz ela.

O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) oferece cursos para agricultores familiares, ajudando-os a planejar e gerir seus negócios rurais com eficiência.

Armina e Francisca encontraram na comunidade apoio para se desenvolverem no empreendedorismo rural.

Produtores rurais cadastrados podem acessar benefícios e cursos, como o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) ou CNPJ.

Um exemplo é Maria do Socorro Protazio, fundadora da empresa Mel e Flor, que participou de cursos do Sebrae há oito anos.

Ela aprimorou suas habilidades em gestão e finanças, o que ajudou a expandir sua empresa de apicultura, que hoje administra cerca de 400 caixas de produção de mel.

“Os cursos me deram a base para acreditar no futuro da empresa e no alcance dos nossos produtos mundialmente”, afirma.

Maria espera exportar mel e seus derivados, tornando-se referência na região.

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