BÁRBARA SÁ
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A mãe da biomédica Heloísa Rodrigues de Lima, 28 anos, foi chamada para prestar depoimento à Polícia Civil de São Paulo nesta semana. Ela é investigada após a filha a denunciar por supostos abusos na infância.
A história de Heloísa ganhou destaque no último domingo (26) após reportagem do Fantástico, da TV Globo. Heloísa luta na justiça para tirar o nome da mãe do seu registro civil, por causa dos sofrimentos que diz ter enfrentado quando criança.
A mãe, Patrícia Alves Duque, negou as acusações em entrevista. “Já fui chamada para depor. Contei tudo para a delegada e neguei porque as acusações são falsas”, disse Patrícia.
A advogada Andréa Galliza, que representa Heloísa, afirmou que o boletim de ocorrência foi registrado em março de 2025. A investigação foi concluída em dezembro do mesmo ano e encaminhada para o Judiciário.
Depois, o processo voltou ao 46º Distrito Policial (Perus) para mais apurações e foi enviado novamente à Justiça em junho deste ano, segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP).
O retorno ao Judiciário ocorreu porque a Polícia pediu uma extensão de 90 dias para finalizar as investigações. A SSP informou que outros detalhes não podem ser divulgados por causa do segredo de Justiça.
“A investigação nunca ficou parada, mas prazos foram prorrogados várias vezes durante o processo”, explicou a advogada.
O advogado criminalista Marcos Mitchell, que defende Heloísa, disse que o caso ainda está na fase de investigação e depende da opinião do Ministério Público.
Ele acredita que uma possível condenação pode ajudar no processo civil em que Heloísa pede a exclusão do vínculo de filiação com a mãe.
O Ministério Público de São Paulo comunicou que o caso está sob segredo de Justiça e as informações são acessíveis apenas às partes envolvidas e seus advogados.
Heloísa disse que soube do progresso da investigação por meio da advogada. “Receber essa notícia me deu esperança por justiça”, afirmou.
Nas redes sociais, Heloísa usa apenas o nome Heloísa de Lima. Mas em documentos oficiais, ela também usa o sobrenome Rodrigues, do pai que a criou, além de Lima, do pai biológico.
A biomédica relata ter sofrido violência física, emocional e exploração sexual quando era criança. Em dezembro do ano passado, a Justiça reconheceu que ela sofreu abusos, negligência e crueldade, mas negou a exclusão da filiação, pois essa medida não é prevista em lei.
A sentença permitiu apenas a retirada do sobrenome da mãe. A defesa recorreu ao Tribunal de Justiça de São Paulo.
Heloísa contou que tentou denunciar a violência ainda criança e procurou o Conselho Tutelar aos 11 anos, mas continuou sendo alvo dos abusos. “Não basta ouvir uma criança. É necessário investigar, agir e garantir que a criança esteja protegida”, declarou.
Já Patrícia Alves contesta a versão da filha, dizendo que Heloísa morou com ela apenas até os cinco anos e depois foi para a casa do pai biológico e dos avós maternos.
“Não sei se houve abuso. Ela nunca morou comigo. Aos sete anos foi morar com o pai e depois com minha mãe. Eu nunca bati nela. Isso é mentira”, afirmou Patrícia.
A mãe também rejeita a decisão que reconheceu os abusos contra Heloísa.
“Nunca aconteceu nada disso. Nunca bati nela”, repetiu. Ela disse estar juntando documentos para provar sua versão. “Estou buscando minhas provas também.”
A ação para retirar o nome da mãe dos documentos continua no Tribunal de Justiça de São Paulo. A defesa de Heloísa argumenta que pais e mães têm os mesmos deveres legais para com os filhos e, por isso, devem sofrer as mesmas consequências quando esses deveres são violados.
“Esse vínculo no registro é uma forma de continuar a violência. Toda vez que preciso preencher um formulário, ir ao hospital ou dizer o nome da mãe, vejo o nome dela. Para mim, ela não é minha mãe. Tirar o nome dela não apaga minha história, mas me devolve um pouco da dignidade e da liberdade para seguir minha vida”, concluiu Heloísa.
