CLÁUDIA COLLUCCI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)
Fiji, um pequeno grupo de ilhas no Pacífico com cerca de 937 mil habitantes, está se destacando por ter um dos aumentos mais rápidos de casos de HIV no mundo. Em pouco mais de dez anos, essa região passou de ter uma das menores taxas na área para enfrentar uma epidemia crescente.
Segundo o relatório da Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids) divulgado durante a conferência internacional de Aids no Rio de Janeiro, Fiji teve um aumento superior a dez vezes no número de novos casos entre 2014 e 2025.
O principal fator para esse crescimento é o uso crescente de metanfetamina injetável, uma droga que até pouco tempo atrás não era comum no país. Em janeiro do ano passado, o governo declarou estado de surto nacional de HIV.
Historicamente, Fiji era uma rota para o trânsito de drogas entre as Américas, Austrália e Nova Zelândia. Agora, enfrenta problemas com o uso interno dessa droga.
Jason Mitchell, líder da força-tarefa nacional contra o surto e participante da conferência, explicou que o vírus deixou de afetar apenas quem usa drogas injetáveis e já atingiu toda a população do país em apenas cinco anos.
A taxa de pessoas entre 15 e 49 anos com HIV é de 1,2%, enquanto entre gestantes ultrapassa 2%. A transmissão do vírus de mãe para filho chegou a 18% no ano passado, um dos índices mais altos globalmente, e o número de crianças infectadas dobrou. No Brasil, por exemplo, a transmissão vertical foi eliminada.
Estima-se que, em 2025, havia cerca de 8.900 pessoas vivendo com HIV em Fiji, número que deve subir para 12 mil em 2026. Esse aumento está ligado à demora em adotar programas de redução de danos, como o fornecimento de seringas limpas para usuários de drogas. O uso de drogas injetáveis é responsável por quase metade das novas infecções.
Apenas 30% das pessoas que têm HIV sabem do diagnóstico, e só um em cada seis está em tratamento. A supressão viral, que indica controle da infecção, está em apenas 2%, muito abaixo dos índices do Brasil.
A epidemia é mais comum entre os jovens de 20 a 34 anos, impulsionada pelo hábito incomum de começar o uso da metanfetamina direto pela injeção, sem fumar ou cheirar antes.
Mitchell também destacou que uma tradição cultural de compartilhar um recipiente para uma bebida típica chamada kava pode ter contribuído para a disseminação do vírus entre usuários de drogas injetáveis, inclusive dentro de famílias.
O país já disponibilizou a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e ampliou centros de atendimento para pessoas com HIV, mas ainda não implementou oficialmente o programa de troca de seringas, essencial para evitar novas infecções, embora os materiais estejam prontos para distribuição.
Além disso, ocorre um surto de hepatite C entre usuários de drogas, sem programa específico de tratamento.
Mark Lal, fundador da organização Living Positive Fiji e uma das poucas pessoas a se declarar publicamente vivendo com HIV, relatou a falta constante de seringas e medicamentos no país. Ele afirmou que poucos conhecem a PEP (profilaxia após exposição) e os antirretrovirais.
A epidemia afeta mais a população indígena iTaukei, que representa 57% da população, mas concentra 94% dos casos. Homens são 2,5 vezes mais afetados que mulheres, embora essa diferença esteja diminuindo com o aumento da testagem.
O estigma é um problema crescente, agravado pela associação do HIV com crimes relacionados às drogas na imprensa. Fiji nunca teve um programa sólido para combater esse preconceito.
Mark contou que, apesar de não sofrer discriminação severa, enfrenta ataques online e críticas nas ruas.
Outro desafio é a privacidade: o país conta com apenas três clínicas para retirada de medicamentos, facilitando a identificação das pessoas que vivem com HIV.
Mitchell também mostrou preocupação com a disseminação do vírus para outras ilhas do Pacífico, que recebem estudantes fijianos. Uma pequena comunidade com menos de 1.500 habitantes já apresenta sinais de infecção.
O apoio internacional vem principalmente da Austrália, da Nova Zelândia e da Índia, além do Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária, que financia países do Pacífico mesmo os de renda média.
Mitchell buscou recursos recentes em Genebra para manter o país no programa global de financiamento, destacando a gravidade do surto, embora enfrente resistência.
