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sexta-feira, 31/07/2026

Idade biológica de quem tem HIV pode ser até 13 anos maior, diz estudo

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CLÁUDIA COLLUCCI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)

O avanço no tratamento contra o HIV transformou a doença de algo fatal para uma condição crônica. Isso trouxe um novo desafio para os sistemas de saúde no mundo: uma geração toda vivendo com o vírus e com o corpo envelhecendo mais rápido do que o normal.

Estima-se que, até 2040, mais de 20 milhões de pessoas com 50 anos ou mais estarão vivendo com HIV, o que será metade de todas as pessoas com o vírus, segundo relatório da revista The Lancet HIV, divulgado durante o congresso internacional de Aids no Rio de Janeiro.

A maioria dessas pessoas estará em países com menor renda, como o Brasil, e precisam de cuidados completos e integrados. Segundo Amy Justice e Keri Althoff, autoras do estudo, o número de pessoas mais velhas com HIV continuará aumentando.

Um dos pontos importantes do relatório mostra que a idade biológica dessas pessoas é maior que a idade real: aos 65 anos, quem tem HIV pode ter saúde compatível com alguém até 13 anos mais velho para homens e quase 12 anos para mulheres.

Mesmo com o vírus controlado, essas pessoas enfrentam riscos maiores de problemas cardíacos, no fígado, rins e câncer, mais cedo do que o esperado. Outras análises usando marcadores no DNA mostram que a idade biológica pode ser 3,6 a 5,2 anos maior que a idade cronológica.

Amy Justice destaca que a idade biológica é mais útil para o cuidado médico do que a idade real, e recomenda avaliações mais completas para quem tem menos de dez anos de expectativa de vida, com planejamento para o fim da vida quando restam menos de dois anos.

É importante reconhecer que pessoas envelhecendo com HIV têm mais riscos de doenças ligadas ao envelhecimento e que isso acontece mais cedo, devido à inflamação constante e à alteração do sistema imunológico.

Grande parte das pessoas com HIV acima de 50 anos foi infectada ainda jovem, nas décadas de 1990 e 2000, quando o tratamento começava tarde, permitindo que o vírus circulasse por mais tempo sem controle.

Além disso, os tratamentos antigos tinham efeitos colaterais que só agora os médicos estão entendendo melhor.

De acordo com o médico Draurio Barreto, coordenador do programa de HIV/Aids do Ministério da Saúde, esse grupo acumulou muitos anos usando remédios mais tóxicos, o que gera problemas como osteoporose, fragilidade óssea e dificuldades nos rins.

Américo Nunes, presidente da ONG Instituto Vida Nova em São Paulo, diz que a maior parte do público é acima de 50 anos, muitos com sequelas motoras e emocionais após décadas de convivência com o vírus.

O Ministério da Saúde tem modernizado os tratamentos para muitos pacientes, com esquemas mais simples de duas drogas, beneficiando cerca de 500 mil pessoas no país.

Na experiência de Américo Nunes, o desgaste dos anos de tratamento se manifesta também em prejuízos cognitivos, como perda de memória e medo do isolamento, já que muitos ainda escondem o diagnóstico devido ao preconceito.

O relatório destaca que enfrentar o estigma do HIV e do envelhecimento é um dos maiores desafios para os próximos anos, pois pode dificultar o acesso a cuidados necessários.

Américo Nunes reforça que essa situação gera um duplo preconceito para quem envelhece com HIV, o que ele chama de estigma composto.

O estudo também aborda a saúde sexual em idosos, mostrando que grande parte continua ativa, mas poucos discutem isso com médicos.

As autoras defendem que os testes para HIV não devem ter limite de idade, já que a detecção tardia é comum em pessoas mais velhas.

Outro problema importantes é o uso de muitos medicamentos ao mesmo tempo, que pode causar interações e efeitos adversos, por isso o cuidado deve ser redobrado.

Amy Justice alerta para a necessidade de evitar remédios desnecessários e recomenda atenção à alimentação e exercícios para evitar ganho de peso.

O relatório enfatiza também grupos pouco estudados como mulheres, migrantes mais velhos, pessoas trans e não-binárias, populações indígenas e pessoas ex-prisioneiras.

A infectologista Beatriz Grinsztejn, uma das autoras, observa que mulheres mais velhas com HIV são um grupo invisibilizado, com muitos diagnósticos fora da idade reprodutiva.

Historicamente, os programas contra o HIV focaram em diagnóstico e tratamento, sem considerar o envelhecimento das pessoas com o vírus.

Para Amy Justice e Keri Althoff, é fundamental integrar cuidados que considerem tanto o HIV quanto o envelhecimento para que essas pessoas possam viver bem.

Elas lembram que envelhecer bem com HIV depende de um tratamento eficaz e contínuo, apesar das mudanças no financiamento global para o combate à Aids.

A jornalista viajou a convite da IAS (International Aids Society).

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