O último relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS), divulgado durante a 26ª Conferência Internacional de Aids no Rio de Janeiro, mostra que as novas infecções por HIV diminuíram cerca de 43% no mundo desde 2010. No entanto, o Brasil registrou um aumento de 20% nesse período, contrariando a tendência global.
Tradicionalmente reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um país modelo na prevenção e tratamento do HIV, o Brasil agora está entre os 21 países com crescimento no número de novas infecções nos últimos 15 anos.
Em 2010, o mundo teve cerca de 2,1 milhões de novas infecções por ano; em 2025, esse número caiu para 1,2 milhão, graças a terapias antirretrovirais eficazes e métodos modernos de prevenção. Contudo, o progresso não é igual para todos.
O volume de novos casos aumentou no Brasil, assim como em países como Afeganistão, Argélia, Bangladesh, Egito, Peru, entre outros. Apesar de conquistas recentes, como a eliminação da transmissão vertical do HIV e o aumento da profilaxia pré-exposição (PrEP), o total de pessoas vivendo com HIV está crescendo em grupos específicos, como homens gays, transgêneros e trabalhadores do sexo.
Dados do Ministério da Saúde indicam que, até 2013, o Brasil não registrava novos casos de infecção por HIV isoladamente, apenas casos de aids. Em 2024, foram reportados 39,2 mil novos casos, um aumento de 21,9% em comparação a 2014, e estima-se que quase 1,7 milhão de pessoas vivem com HIV atualmente.
Por outro lado, a mortalidade por HIV no Brasil caiu 20% entre 2014 e 2024, atingindo menos de 10 mil mortes em 2025. Ainda assim, fatores como menor escolaridade, ser solteiro e residir em áreas vulneráveis, especialmente na Região Norte, influenciam a mortalidade, afetando especialmente pretos, mulheres e jovens.
O país também aumentou em 41% o acesso a medicamentos preventivos no último ano e ampliou em até 10% os investimentos públicos em prevenção e tratamento do HIV. Contudo, o diagnóstico tardio e as desigualdades dificultam resultados melhores.
Razões para o aumento dos casos
Especialistas presentes na conferência no Rio apontam que o aumento dos casos no Brasil é resultado de fatores sociais, econômicos e estruturais. Entre eles, destacam o fim das grandes campanhas de conscientização, o estigma e a discriminação em algumas populações, desigualdades no acesso à PrEP, cortes de financiamento e a falsa impressão de que o HIV não é mais uma ameaça para os jovens.
O infectologista Estevão Portela, diretor do Instituto de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz, afirma que é necessário melhorar a comunicação e educação sobre o contágio e prevenção nas populações mais vulneráveis, além de superar barreiras do conservadorismo que dificultam uma abordagem mais aberta.
Portela destaca a importância da ampliação do acesso à PrEP. Segundo ele, a maioria dos estados ainda não dispõe de estratégias para levar a PrEP principalmente a grupos com menos acesso aos serviços de saúde, ressaltando que o acesso à PrEP injetável poderia melhorar a adesão e eficácia da prevenção.
Contexto na América Latina
Na América Latina, o aumento de novos casos foi de 25% entre 2010 e 2025. A diretora executiva do UNAIDS, Winnie Byanyima, afirma que enfrentar esse avanço é uma questão de direitos humanos e acesso digno aos serviços de saúde.
Winnie ressalta que o HIV é impulsionado pela desigualdade na região, onde novas infecções ocorrem principalmente entre populações-chave, devido ao estigma, discriminação, violência sexual e falta de acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva. Ela defende que, se esses obstáculos forem vencidos, o HIV pode ser controlado rapidamente na região.
A diretora também destaca os avanços na prevenção, como o uso de medicamentos injetáveis de longa duração, citando o lenacapavir. Porém alerta que a inovação sem acesso é injustiça, e o principal desafio é garantir que esses medicamentos cheguem às pessoas que mais precisam, com custos acessíveis.
Estadão Conteúdo
