De acordo com a geógrafa Larissa Mies Bombardi, sete dos dez agrotóxicos mais usados no Brasil são proibidos na União Europeia. Ela alerta para o que chama de “colonialismo químico”, destacando que empresas europeias vendem ao Brasil produtos que não são permitidos em seus próprios países.
Essas informações foram compartilhadas por Bombardi na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, Rio de Janeiro. Com cerca de 15 anos de estudo sobre o uso e os impactos dos agrotóxicos, ela ressalta os danos que essas substâncias causam ao meio ambiente, à saúde humana e animal.
Entre os agrotóxicos mais usados no Brasil em 2023 estão glifosato, mancozebe, 2,4-D, acefato, clorotalonil, atrazina, s-metolacloro, glufosinato, malationa e dibrometo de diquate. Destes, sete — mancozebe, 2,4-D, acefato, clorotalonil, atrazina, s-metolacloro e dibrometo de diquate — são proibidos na União Europeia.
Bombardi cita dados do Atlas dos Pesticidas 2022, que mostram uma queda de 41% na população de insetos e de 53% em borboletas no mundo entre 2009 e 2019. Ela destaca a atrazina, que pode causar problemas graves em anfíbios, como alterações hormonais e mudança de sexo em sapos.
O Brasil é o principal destino da exportação de pesticidas proibidos na União Europeia, recebendo 3 mil toneladas em 2023, mais do que Ucrânia, Estados Unidos e Rússia juntas. O mercado de agrotóxicos e sementes resistentes a pragas no país é dominado por quatro empresas: Basf, Bayer, Corteva e Sinochem, que juntas controlam grande parte do mercado.
Larissa Bombardi também relaciona o uso de agrotóxicos à concentração de terras no Brasil, sendo que grandes proprietários controlam a maior parte da terra. Ela vive na Bélgica desde 2021, onde pesquisa agroecologia na Universidade Livre de Bruxelas, tendo saído do Brasil devido a ameaças relacionadas a estudos que publicou sobre resíduos de agrotóxicos em alimentos nacionais.
Em 2023, entrou em vigor a Lei dos Agrotóxicos (Lei 14.785), que regula o uso desses produtos no Brasil. A aprovação dos registros é feita pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com avaliação toxicológica da Anvisa e análise ambiental do Ibama. A Anvisa destaca que cada país tem suas regras para registro e que produtos podem ser reavaliados, podendo ser mantidos, restritos ou proibidos.
