Por Mateus Péres
— Tia, tio… você é homem ou mulher?
A pergunta surgiu de forma natural e sincera, típica das crianças. Edu Dias da Silva sorriu e respondeu à menina no Centro Educacional da Vargem Bonita: “O que você acha?”
A criança observou a professora, que usava unhas grandes, tinha barba e brincos, e respondeu: “A senhora é homem porque tem barba.”
Edu concordou com um sorriso, e logo outra criança perguntou:
— Tia, tia, tia… a senhora é homem ou mulher?
“O que você acha?”
— A senhora é mulher porque usa brinco.
Um ano depois, essas perguntas deixaram de ser feitas entre lápis de cor e desenhos, passando a ecoar dentro das grades e corredores da Penitenciária do Distrito Federal 1 (PDF 1). Mesmo assim, a essência continuou a mesma: pessoas querendo entender quem é aquela travesti em um ambiente onde ela é uma presença rara.
Hoje, aos 43 anos, Edu é professora da rede pública, licenciada em inglês, francês, português e Libras, mestre duas vezes e doutora em Literatura. Ela também leciona no sistema prisional do Distrito Federal. Mas, antes dos títulos, sua presença simboliza coragem e mudança.
No Brasil, que lidera índices globais de assassinatos de pessoas transgênero, Edu atravessa os portões da PDF 4 da Papuda diariamente para ensinar línguas a homens privados de liberdade.
Na prisão
O primeiro dia de Edu na penitenciária ficou marcado na memória dela: o espaço cercado, as grades, o som dos portões, e principalmente os homens, todos vestidos de branco.
“Entrei pela PDF 1, uma das unidades de maior controle. No início de cada semestre há uma apresentação dos professores para os presos, que acontece no pátio durante o banho de sol. Cada professor fica em uma espécie de gaiola, visível por detrás das grades,” conta.
Ela lembra do medo inicial ao enfrentar centenas de homens, de várias idades e raças, encarando aquela situação.
O corpo virou o assunto
Antes mesmo de falar, o corpo de Edu já era comentado. Ela decidiu falar sobre sua identidade logo no início para esclarecer dúvidas.
“Bom dia a todos. Sou a professora Edu. Sou travesti, pronomes ela/dela, e vou dar aula de português e inglês neste semestre. Espero que tenhamos um ótimo semestre.”
O silêncio deu lugar à curiosidade. Para muitos, era a primeira convivência diária com uma pessoa trans fora dos estigmas sociais.
Presença rara
Atualmente, 235 professores atuam no sistema prisional do Distrito Federal, sendo 101 homens e 134 mulheres. Apenas duas pessoas trans lecionam nessas unidades, e Edu é uma delas, representando um grupo pequeno e raro.
Dentro da Papuda, Edu reforça para os alunos que está ali apenas para ensinar, não para julgar.
“Eu sou professora. Vocês estão na sala de aula. Não sou juíza, promotora ou defensora pública. Não trago julgamentos, apenas conhecimento.”
Ela descreve a escola do presídio como um lugar com quadro, cadernos, atividades e uniforme da rede pública, tentando construir um ambiente semelhante a qualquer outra sala de aula do Distrito Federal.
A cela adaptada lembra que estão no presídio, mas durante as aulas, aqueles homens são estudantes em um ambiente diferente.
Edu não reduz os alunos aos crimes cometidos, reconhecendo as histórias difíceis e a humanidade presente neles.
Com o tempo, o respeito aumentou, com cumprimentos nos corredores como “Bom dia, professora” e perguntas se ela estava bem quando faltava.
Madrinha da Papuda
Em um semestre, uma turma escolheu Edu como madrinha, o que a emocionou profundamente.
“Foi mágico, pois estava à frente da turma na presença do diretor do presídio e familiares dos detentos. Foi um momento muito forte para mim.”
Ela ainda reflete sobre a importância política da escolha feita por homens criados em uma estrutura machista, optando por uma travesti para um papel de afeto e representação.
“Quero ser lembrada não como a primeira, mas como continuação de um caminho possível para pessoas trans.”
Entre desafios e superações
Antes de assumir a função atual, Edu acreditava que a escola tradicional era um lugar seguro.
“Sempre considerei a sala de aula um ambiente de respeito. Nunca pensei que enfrentaria transfobia ou violência de gênero”, relata.
Porém, uma reclamação na ouvidoria da Secretaria de Educação, feita por alguém da escola, usando pronomes masculinos para ela, a abalou profundamente.
Edu tentou permanecer, mas não conseguiu se sentir segura e teve que se afastar.
A coragem de ser ela mesma
Antes de professora, Edu foi uma criança lutando para existir no próprio corpo. Sofreu agressões na infância e exclusão na adolescência.
“A sociedade tenta moldar você para se ajustar e evitar violência, fazendo com que você tente ser igual a alguém. Eu não cabia nem entre meninos, nem entre meninas.”
Doutora, professora e travesti que desafia estereótipos
A família soube da transição no aniversário de 21 anos, com muitas emoções e negações.
Uma frase da mãe marcou por anos: “Você não gosta de mulher, mas não quero que você ande na rua vestido assim.”
A mãe faleceu em 2014 e somente depois disso Edu iniciou sua transição.
“Não prometi nada a mais ninguém, nem esperei ninguém partir para ser eu mesma.”
Existir é resistir
Edu sabe que sua existência própria é uma forma de militância.
“Estar viva e trabalhando é um ato político. O corpo é político e meu caminho é fruto do esforço de muitas que vieram antes.”
Embora a Secretaria de Educação registre gênero entre professores, não há uma categoria específica para docentes trans. Muitas dessas pessoas são invisíveis oficialmente, mas sua presença é sentida nas salas e histórias.
O aconchego após a luta
Fora do presídio, Edu vive com o médico aposentado José Aldo Gomes Alves, 64 anos.
Ele destaca não só os títulos acadêmicos, mas a garra, força e humanidade da companheira.
“O momento mais orgulhoso foi quando ela fez o doutorado, passando de primeira, enquanto iniciava a transição — duas coisas difíceis ao mesmo tempo.”
José Aldo admira a coragem e determinação de Edu em enfrentar preconceitos e continuar ajudando os outros.
“Ela é vencedora, venceu os preconceitos e continua atendendo às necessidades das pessoas.”
