PATRICIA CAMPOS MELLO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A maioria dos brasileiros sente medo de sair à noite devido à violência, conforme uma nova pesquisa divulgada nesta sexta-feira (30). Além disso, 60% das pessoas já evitaram frequentar lugares de que gostam e 30% já deixaram de usar transporte público por causa desse medo.
O estudo mostra também que 68% dos entrevistados pararam de usar o celular na rua e 41% não permitem que seus filhos saiam sozinhos.
A pesquisa, encomendada pelo Instituto Update e pelo Instituto Fogo Cruzado, revela que o medo limita a circulação e as oportunidades das mulheres no Brasil, indicando que 92% da população concorda que as mulheres estão mais expostas à violência.
As pessoas entrevistadas mencionam que as mulheres enfrentam riscos como assédio, violência doméstica e abuso físico ou psicológico.
O levantamento “Mulheres, polícia e facções – O que está no centro do debate sobre segurança pública?” foi feito pela Ideia Instituto de Pesquisa com 2.000 entrevistas por telefone em todo o país, realizadas de 24 a 31 de março. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais.
Além disso, duas pesquisas qualitativas feitas pela Estratégia Latina indicam que as mulheres vivem em um “estado de alerta constante” devido ao medo da violência.
As participantes relatam que precisam estar sempre atentas a riscos como assaltos, assédios e violência sexual, usando diversas estratégias para se proteger, como esconder o celular, compartilhar localização com amigos, vigiar prestadores de serviços e formar redes de vigilância com vizinhas e amigas.
Esse estado de alerta também se estende aos momentos de lazer e cuidado com os filhos, sobretudo pelo medo de sequestros, citado em cidades como Manaus e Fortaleza.
Na parte qualitativa da pesquisa, os ônibus, metrôs, trens, pontos de parada e corridas por aplicativos foram apontados como locais de maior insegurança. No levantamento quantitativo, 39% das mulheres disseram sentir-se inseguras no transporte público, contra 26% dos homens.
Os relatos mostram que a insegurança faz as mulheres adotarem rotinas mais restritas, limitando-se principalmente a casa, igreja, trabalho e supermercado. Muitas deixaram de fazer atividades de lazer, estudar, visitar parentes ou sair em certos horários por medo da violência.
Carol Althaller, diretora-executiva do Instituto Update, explica que o medo das mulheres tem um custo invisível e constante que não aparece nas estatísticas oficiais, pois violências como assédio na rua e restrição de horários raramente estão nos índices tradicionais de segurança pública. Isso faz com que as políticas públicas não contemplem a violência que mais limita a liberdade das mulheres.
Nos recentes debates presidenciais, os candidatos ofereceram propostas para a segurança das mulheres. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) promete castração química para casos de estupro e crimes sexuais contra crianças, além de oferecer assistente de IA para mulheres vítimas de violência doméstica. Entretanto, ele está em desvantagem de 10 pontos percentuais nas intenções de voto entre mulheres em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de acordo com a última pesquisa Datafolha.
Já o presidente Lula lançou um pacote para combater o feminicídio, incluindo a criação de um cadastro nacional de agressores e maior facilidade para afastar imediatamente agressores do lar.
Cila Schulman, CEO do Ideia Instituto de Pesquisa, comenta que as campanhas falam de segurança pensando apenas em criminosos e polícia, mas as mulheres sabem que a violência acontece em casa, no transporte e no trabalho. Segurança para a mulher é uma pauta diária, pois 28% apontam violência doméstica como maior motivo de insegurança, 27% mencionam assédio, e 96% reconhecem que as mulheres enfrentam riscos que os homens não vivem.
A pesquisa indica ainda que a população apoia punições mais duras, mesmo sem confiar plenamente na eficácia da polícia. A punição é a prioridade para 42% dos entrevistados, enquanto 41% acreditam que a polícia protege a população e 22% acham que a segurança melhora após operações policiais.
Sobre medidas preventivas, 49% acreditam que prender pessoas ajuda a reduzir a violência, e 45% apostam em educação e políticas sociais para esse objetivo.
Carol Althaller esclarece que o país está dividido nessa questão, com uma parte defendendo penas mais duras e outra valorizando a educação e políticas sociais. Ela ressalta que a solução para o problema de violência é complexa e vai além da construção de presídios.
