GABRIEL GAMA
Porto Seguro, BA (FolhaPress)
Na região sul da Bahia, onde a Mata Atlântica começou a ser desmatada durante a colonização portuguesa, algumas empresas estão empenhadas em replantar árvores nativas e obter créditos de carbono.
A Symbiosis Investimentos iniciou suas atividades em Porto Seguro em 2010, plantando 100 mil mudas por ano. Atualmente, sua produção anual chegou a 3,9 milhões de mudas, trabalhando tanto na recuperação da floresta quanto na produção sustentável de madeira.
“É quase um reparo histórico”, afirma Alan Batista, CFO da empresa. “Uma floresta tropical é muito diversa, não existe monocultura na natureza. Symbiosis significa uma relação de benefício mútuo entre o homem e a natureza.”
O trabalho chamou a atenção da Apple, que em 2023 fez uma parceria para comprar créditos de carbono via o Restore Fund, um fundo da empresa em conjunto com o Goldman Sachs e a Conservação Internacional para reduzir gases do efeito estufa. Em 2025, a Symbiosis também recebeu R$ 77 milhões do Fundo Clima para um projeto de silvicultura com plantas nativas.
Na fazenda principal da empresa, com 345 hectares, antes usada como pasto sem árvores, hoje são cultivadas 12 espécies diferentes, incluindo árvores quase desaparecidas como peroba-rosa, braúna e pau-brasil, árvore símbolo do Brasil.
A Symbiosis tem o plano de cortar cerca de 30% das árvores a cada cinco anos de forma controlada para manter a cobertura florestal e permitir a regeneração natural sem desmatamento total.
A empresa administra 12 fazendas, totalizando cerca de 5.000 hectares, com metade da área sendo plantada e a outra conservada. A meta é atingir 5.000 hectares de plantio até o próximo ano.
Partes dessas terras foram alugadas para projetos de carbono com contratos de 40 anos, garantindo a preservação das florestas até 2060, segundo Batista.
A Symbiosis deverá lançar em breve 8.000 créditos de carbono certificados pela Verra, com previsão de alcançar 1 milhão em 15 anos. Esses créditos serão vendidos para a Apple e para o mercado em geral.
A empresa vai iniciar em agosto os testes de uma serraria para produzir peças de madeira de espécies quase extintas usadas na construção e design.
Mickael Mello, gerente comercial da Symbiosis, explica que as árvores mais valiosas da Mata Atlântica já foram extintas ao longo de 526 anos, enquanto a exploração atual está concentrada na Amazônia, com espécies como jatobá e angelim.
“Se houver madeira legal de jacarandá-da-Bahia e jequitibá-rosa plantada, o mercado vai absorver, pois madeira legal originária dessa árvore quase não existe mais”, diz Mello.
O jacarandá-da-Bahia, por exemplo, está listado em uma convenção internacional que controla seu comércio devido ao risco de extinção, exigindo comprovação do plantio legal para exportação.
Batista comenta que a crise recente no mercado de carbono voluntário, causada por fraudes, reflete problemas similares no setor madeireiro, afetando a confiança e a competitividade do Brasil, que reduziu sua participação global de 20% para 3% desde 2008.
Projeto inicial da Biomas
Em Itagimirim, a 70 km de Porto Seguro, o projeto Muçununga liderado pela Biomas é a primeira ação de restauração florestal dessa empresa formada em 2022 por Itaú, Marfrig, Rabobank, Santander, Suzano e Vale. O projeto visa a recuperação florestal e a venda de créditos de carbono.
Até o momento, 500 hectares foram plantados dos 1.242 previstos, abrangendo oito municípios da região desde o início em 2025, explica Marcelo Pereira, diretor de restauração e carbono.
A Biomas quer restaurar 2 milhões de hectares em 20 anos. O Brasil prometeu recuperar 12 milhões de hectares até 2030 no Acordo de Paris, com 3,4 milhões atualmente em recuperação até novembro de 2025.
A área do projeto pertence à Veracel, empresa de celulose que transferiu o uso para a Biomas por 100 anos. Virginia Camargos, gerente ambiental da Veracel, confirma esta parceria.
“A vida humana é curta, uma corrida rápida, mas a jornada da floresta é uma maratona longa”, comenta Pereira.
O Muçununga trabalha com 105 espécies diferentes, buscando manter a absorção de carbono pelo maior tempo.
Dimitrio Schievenin, gerente de restauração da Biomas, explica: “Espécies que crescem rápido capturam o carbono do presente, e o pau-brasil, que cresce devagar, é o carbono do futuro.”
Uma das limitações para o reflorestamento no Brasil é a oferta de mudas. No Muçununga, 60% das mudas vêm da região e 40% de Minas Gerais e São Paulo, com cerca de 1.500 árvores plantadas por hectare.
Pereira ressalta que se houver demanda clara, o setor pode se estruturar melhor no médio e longo prazo.
Este relato foi feito a convite da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá).
