João Pedro Feza
Santos, SP (FolhaPress)
Depois que a moto aquática em que estava quebrou e afundou no mar, a auxiliar de enfermagem Bruna Damaris Sant’Anna da Silva, de 26 anos, ficou perdida no mar por 42 horas em Ilhabela, litoral de São Paulo. Um mês depois, ela conta sua história de sobrevivência.
Durante esse tempo no mar, Bruna sofreu muito, ficou cansada, desmaiou algumas vezes e teve alucinações. Ela chegou a pedir a Deus para que sua morte fosse tranquila. O amigo que estava com ela, que pilotava a moto, infelizmente morreu afogado. O corpo dele, Dheorge Pereira Bernardino, 28 anos, foi encontrado pela Marinha três dias depois. “Fiz o máximo para tentar salvar ele”, diz Bruna.
O que era para ser um passeio de moto aquática após uma festa em uma lancha virou um acidente grave.
Bruna, que nasceu e cresceu em São Sebastião, cidade próxima, aceitou o convite de Dheorge, que tinha conhecido recentemente, para dar uma volta na moto aquática.
Sem celulares e longe do grupo, eles perceberam que a moto estava com problemas.
“A correnteza nos levou”, conta Bruna. Eles estavam usando coletes salva-vidas, pularam e tentaram nadar para conseguir ajuda, mas tiveram que voltar.
Na noite de domingo, a moto começou a virar e encher de água, e ondas derrubaram os dois. Na escuridão, a moto desapareceu.
Bruna diz que eles acharam uma cordinha com ganchos no compartimento da moto e amarraram os coletes um no outro para não se separarem. Também vestiram duas blusas que estavam na moto.
Nadando para a morte
Na manhã seguinte, eles tentaram chamar a atenção de um helicóptero, mas não foram vistos. Dheorge chegou a fazer piadas sobre passar a comer aves que voavam perto deles.
Com o tempo, Dheorge começou a sentir dores e câimbras. Bruna tentou nadar até um barco que viu longe, enquanto ele descansava, mas não conseguiu alcançá-lo.
À noite, com chuva e neblina, os dois começaram a ficar desorientados. Dheorge falava coisas confusas e queria atravessar portões imaginários, dizia que chamaria um Uber. Bruna também teve alucinações, vendo a namorada dela chegando com uma maçã.
O estado de Dheorge piorou. Sem forças para se mexer, ele alternava entre momentos de clareza e confusão. Tentava abrir o colete salva-vidas e Bruna tentava animá-lo a continuar lutando.
Então Bruna decidiu nadar para um ponto que achava ao longe, que depois descobriu ser a Ilha de Búzios, onde foi salva. Sozinha, teve outras alucinações, vendo sua mãe dançando, vários tubarões e até uma torre de telefone amarela em cima de uma base de cimento.
“Eu estava nadando para a morte”, diz Bruna. Sem água e comida, pediu para Deus que sua morte fosse digna, e não sofrida com fome e sede.
Os salvadores
De manhã, Bruna teve outra alucinação com a filha dela, que faria cinco anos em julho, afundando atrás dela. Mas então ela viu um barco de pescadores, o que era real. “Foi minha última chance”.
Ela pediu ajuda a várias entidades religiosas para ter força e nadar um pouco mais. Quando chegou perto, gritou e ouviu alguém responder que estavam indo até ela.
Foi resgatada por Alex dos Santos e seu filho Alan. Pediu que procurassem por Dheorge imediatamente. Ela recebeu água, comida e roupas secas antes dos bombeiros marítimos chegarem, para quem reforçou a necessidade de encontrar o amigo.
Bruna foi levada ao Hospital Municipal Mário Covas, em Ilhabela, e teve alta dois dias depois. Hoje, ela está sendo acompanhada por médicos, psicólogos e psiquiatras.
Ela sente muito a perda de Dheorge. “Estudo para salvar vidas. Queria ter tido mais forças para salvar ele”, diz, formada em técnico de enfermagem.
Bruna parou suas atividades para se recuperar em casa. Recentemente, esteve com amigas fazendo macarrão com camarões pescados por Alex e Alan, que já viu duas vezes desde o resgate. “Alex até me envia vídeos de pesca.”
Apesar de nadar desde criança, não pretende voltar ao mar tão cedo. “Minha namorada e meus pais passaram por um luto que não puderam viver. Quero voltar a ir à igreja para agradecer pela vida.”
O responsável pela moto aquática foi indiciado por suspeita de homicídio culposo (sem intenção de matar), falsidade ideológica e exercício ilegal de atividade, mas seu nome não foi divulgado e ninguém foi preso.
