O dólar terminou o dia quase sem mudanças em relação ao real, apesar dos dados fracos de emprego nos Estados Unidos em junho. Pela manhã, a moeda americana chegou a cair, mas recuperou-se ao longo do dia, fechando cotada a R$ 5,2083, com leve queda de 0,04%. Na semana, o dólar subiu 0,79%.
O cenário local, influenciado por preocupações com a piora das contas públicas e pela diminuição do apoio ao pré-candidato à presidência, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), limita a força do real, principalmente após queda nos preços do petróleo devido às negociações de paz entre EUA e Irã.
Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora, explica que apesar do mercado local tentar se beneficiar do alívio externo com dados fracos sobre os juros americanos, não há expectativa de queda do dólar porque se espera aumento dos gastos públicos com foco na eleição.
Durante a tarde, o dólar oscilou, tendo atingido máximas próximas a R$ 5,22, mas voltou a estabilidade sem motivos claros para a movimentação.
Analistas citaram como possíveis causas para a instabilidade falas do ministro da Fazenda, Dario Durigan, sobre reforma tributária, e reportagens recentes sobre financiamentos relacionados ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A Kinea Investimentos destacou em nota que o ambiente externo desafiante, junto com problemas internos como políticas fiscais expansionistas, deixa o real vulnerável, dificultando investimentos na moeda brasileira.
O índice DXY, que compara o dólar com outras moedas fortes, registrou queda superior a 0,50%, indicando recuo do dólar em relação ao conjunto dessas moedas. No ano, o índice mostra alta moderada de pouco mais de 2,60%.
O relatório de empregos mostrou criação de apenas 57 mil vagas em junho nos EUA, menos que as 110 mil esperadas pelos analistas. A taxa de desemprego caiu levemente para 4,2%, refletindo menor participação no mercado de trabalho, conforme o economista-chefe internacional do banco ING, James Knightley.
Os mercados ajustaram suas expectativas para possíveis aumentos de juros pelo Federal Reserve, com chances de alta em setembro caindo para pouco acima de 50%, porém ainda acima de 70% para dezembro.
Knightley considera que provavelmente haverá uma pausa prolongada nos aumentos de juros pelo Fed, destacando que a inflação ao consumidor nos EUA deve mostrar leve queda em junho, especialmente por preços menores da gasolina, o que pode influenciar positivamente o humor dos investidores.
Bolsa
O Ibovespa manteve alta durante a maior parte do pregão, chegando a 174 mil pontos com o otimismo gerado pelos dados de emprego americanos mais fracos. Porém, a recuperação perdeu força diante de fatores como queda nas bolsas de Nova York e preocupações com a situação fiscal e política no Brasil.
O índice fechou com alta de 0,64%, aos 172.787,62 pontos, desempenho que reduziu a perda semanal para 0,29% e elevou o ganho anual para 7,24%. O volume financeiro chegou a R$ 19,57 bilhões, com destaque para ações de Petrobras, Vale e bancos, todas em alta.
André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, apontou que a aproximação do pré-candidato Flávio Bolsonaro com os EUA pode aumentar tensões políticas, afetando o mercado.
Flávio Bolsonaro enviou pedido ao Escritório do Representante Comercial dos EUA para suspender a tarifa de 25% sobre exportações brasileiras, argumentando uso político da medida pelo governo e mídia alinhada ao Planalto. Por sua vez, o presidente Lula repudiou a tentativa, atribuindo a responsabilidade da alta das tarifas à família Bolsonaro.
Pesquisas recentes indicam liderança de Lula na disputa presidencial sobre Flávio Bolsonaro.
O estrategista-chefe da Krivo Capital, Marco Saravalle, ressaltou que o volume na bolsa foi fraco com menor participação de estrangeiros devido ao feriado nos EUA, além da preocupação com futuros juros no Brasil e incertezas políticas, fatores que limitam o apetite por risco.
Juros
Os juros futuros no Brasil subiram em mais uma sessão, impulsionados por leilão agressivo do Tesouro Nacional que colocou no mercado grande volume de títulos prefixados, além de movimentos internacionais originados por possíveis intervenções do governo japonês para conter desvalorização do iene.
Estas ações foram interpretadas como tentativa de evitar aumentos nos juros japoneses, provocando inclinação nas curvas de juros globais, incluindo a brasileira.
No Brasil, o aumento de preocupações fiscais e eleitorais contribuiu para manter os juros elevados.
As taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027, 2029 e 2031 subiram, refletindo o cenário tenso.
Jonas Goltermann, economista-chefe de mercados da Capital Economics, apontou que os dados de emprego mais fracos nos EUA esfriaram a impressão de superaquecimento da economia americana, mas mantém a expectativa de política monetária conservadora pelo Federal Reserve, com juros elevados e fortalecimento do dólar nos próximos meses.
Para o estrategista-chefe da Warren Investimentos, Luis Felipe Vital, a postura do Tesouro Nacional demonstra intenção de aproveitar oportunidades para emissões de títulos prefixados, apesar do cenário desafiador.
O head de renda fixa da Suno Research, Guilherme Almeida, comentou que a volatilidade crescente na curva de juros está relacionada à proximidade da eleição presidencial e ao aumento do risco fiscal percebido pelo mercado, destacando que os conflitos internacionais recentes também influenciam este comportamento.
