MARCOS HERMANSON e PEDRO S. TEIXEIRA
BRASÍLIA, DF, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A decisão do governo Lula (PT) de aumentar o imposto para a importação de grandes servidores gerou um conflito entre empresas que fabricam equipamentos de hardware no Brasil e as grandes companhias de tecnologia que querem instalar esses servidores prontos no país.
A Brasscom, que representa empresas como Microsoft, Oracle e Amazon, está tentando reverter essa decisão junto ao governo. A entidade já conversou com representantes do governo e enviou comunicação à Câmara de Comércio Exterior (Camex), órgão responsável pelo aumento das taxas de importação para até 25%.
Segundo Affonso Nina, presidente da Brasscom, eles estão buscando uma solução que beneficie todas as partes: fabricantes, operadores de data centers e provedores de nuvem.
Por outro lado, a Abinee, que representa fabricantes brasileiros como Cisco, Foxconn e Dell, apoia a medida do governo. O grupo argumenta que antes era mais caro importar peças para fabricar no Brasil do que comprar equipamentos prontos do exterior.
Mauricio Helfer, diretor da Abinee, enfatiza que não faz sentido isentar o imposto para equipamentos quando existem empresas nacionais capazes de produzir esses produtos e gerar empregos e investimentos.
Ele acrescenta que, apesar das alíquotas mais altas, continua sendo possível pedir isenção para produtos que não têm similares nacionais.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) afirmou que o aumento das tarifas tem como objetivo fortalecer a indústria nacional de tecnologia, incentivando a produção local e as exportações.
A Camex não recebeu nenhum pedido formal para mudar a decisão até o momento, mas mantém diálogo com os setores produtivos.
O conflito reside no desejo das grandes empresas de trazer servidores já montados ao Brasil, que contêm chips caros produzidos por fabricantes globais como Nvidia e AMD. Essas empresas consideram suas plantas de montagem segredos industriais e, por isso, relutam em divulgar técnicos para comprovar que o produto não possui similar nacional.
Apesar das discordâncias sobre a importação, fabricantes e big techs concordaram em relação ao programa Redata, que previa benefícios fiscais para instalação de data centers no país. No entanto, essa medida nunca entrou em vigor pois foi suspensa pelo governo à espera de aprovação do Congresso Nacional.
Enquanto isso, a alíquota de importação para servidores montados foi mantida em 25% pela Resolução 852 da Camex.
Impasses travam construção de data centers no Brasil, dizem operadores
Luciano Fialho, vice-presidente sênior da Scala Data Centers, afirma que o aumento da tarifa, a paralisação do programa Redata e a demora dos estados em ajustar o ICMS deixaram o mercado de construção de data centers parado no Brasil.
Ele alerta que esse ano poderá ser marcado pela falta de demanda, e que o novo sistema tributário do próximo ano não trará isenção para muitos itens, o que pode agravar a situação.
Marcos Siqueira, head de estratégia da Ascenty, que opera 35 data centers, acrescenta que, apesar do Brasil contar com uma matriz energética limpa e boa conectividade, o alto custo para importar equipamentos coloca o país em desvantagem para atrair investimentos.
