FELIPE GUTIERREZ
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Especialistas que acompanham a política econômica dizem que o Banco Central (BC) indica que a inflação só vai chegar ao centro da meta de 3% em 2028, e que este ano o índice deve ultrapassar o limite permitido de 4,5%.
Na quarta-feira (17), o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a taxa básica de juros, Selic, em 0,25 ponto percentual, chegando a 14,25%, o terceiro corte seguido desde março.
No comunicado após a decisão, o comitê explicou que, se mantivesse os juros no nível necessário para alcançar a meta até o final de 2027, a inflação cairia abaixo do alvo no começo de 2028, embora sem detalhar valores.
O plano original era realizar vários cortes semelhantes, mas o cenário mudou por causa do conflito no Oriente Médio, que piorou as expectativas de inflação.
Há ainda riscos externos, como a alta de preços ligada ao fenômeno El Niño, que pode afetar a conta de luz e os alimentos, e discussões sobre mudança na jornada de trabalho. Para os especialistas, ainda não está claro se o ciclo de cortes terminou.
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, observa que os dados do mercado de trabalho e consumo mostram que a economia está resistente, embora os investimentos estejam desacelerando.
“A inflação já não estava controlada, só caminhando para a meta, que fica mais distante, e o BC já fala em 2028. A ideia é que 2026 seja perdido, 2027 também, e talvez em 2028 seja possível atingir a meta”, afirmou.
Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, comenta que os efeitos da política monetária levam tempo, são incertos e acumulativos.
A próxima reunião do Copom será no início de agosto, e para então o horizonte da política já incluirá o primeiro trimestre de 2028.
O Copom diz que fez simulações que indicam a necessidade de continuar suavizando a política monetária agora para evitar que a inflação fique abaixo da meta de 3% no início de 2028.
“O Copom não vai desistir da meta de 2027, mas talvez não consiga ficar no centro, porque, se apertar a política, pode errar a inflação de 2028”, explicou Cardoso, que aguarda mais detalhes na ata da reunião.
Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, disse que o comunicado foi um pouco confuso, e que a ata será importante para entender o plano.
Rafael Ihara, economista-chefe da Meraki Capital, destacou as simulações no comunicado.
Lucas Barbosa, economista da AZ Quest Investimentos, diz que, em 2028, o impacto do choque do petróleo e o efeito do El Niño já terão passado, e sem esses fatores externos, a inflação deve ficar abaixo da meta.
Os analistas afirmam que o BC reconhece que as eleições deste ano trazem dificuldades. Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, sinaliza que o comunicado reconhece uma piora no cenário doméstico desde abril.
“A previsão de inflação para 2026 subiu de 4,6% para 5,2%, e para o quarto trimestre de 2027, período relevante para a política monetária, aumentou de 3,5% para 3,7%, aproximando-se do teto da meta.”
Kayo acrescenta que, pela primeira vez, o BC mencionou estímulos à demanda, sugerindo um impulso fiscal por causa das eleições, como risco para a inflação.
Sérgio Samuel dos Santos, economista do Sistema Ailos, também ressalta que o comitê cita a política fiscal e os estímulos econômicos como riscos inflacionários.
Vale, da MB Associados, reforça que a situação do BC fica mais complicada com uma política fiscal e parafiscal expansionista.
