ANA BOTTALLO
FOLHAPRESS
Um levantamento realizado em Belo Horizonte revelou que a vacina contra a dengue Qdenga, produzida pela Takeda, causou mais reações alérgicas do que o indicado nos testes clínicos e nos estudos-piloto após começar a ser usada comercialmente.
Foram registrados 28 casos de hipersensibilidade (reação alérgica) entre 146.115 doses aplicadas em crianças de 6 a 14 anos, entre fevereiro de 2024 e fevereiro de 2025, sendo 104.286 primeiras doses e 41.829 segundas doses do imunizante.
Desses casos, 9 foram graves (anafilaxia) e 2 casos evoluíram para choque anafilático. O estudo foi publicado em 26 de abril na revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.
Todas as reações ocorreram após a primeira dose, em crianças com idade média de 9,4 anos. Todos receberam atendimento médico e se recuperaram completamente em até 48 horas.
O índice de eventos adversos analisado foi de 191,6 por milhão de doses, ou seja, aproximadamente 1 reação a cada 10 mil doses. Para as reações classificadas como anafilaxia, a taxa foi de 61,6 por milhão. No Brasil todo, a média dessa reação foi de 36,4 por milhão de doses aplicadas.
Desde 2024, a vacina é oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos, grupo mais afetado por hospitalizações por dengue. Algumas cidades, como Belo Horizonte, ampliaram esse público para incluir crianças a partir dos 6 anos.
Alexandre Sampaio Moura, infectologista da Faculdade da Santa Casa e autor principal do estudo, explicou que a pesquisa surgiu após profissionais da saúde de Belo Horizonte perceberem um aumento inesperado nas reações durante a vacinação. Eles revisaram todas as notificações no sistema e-SUS Notifica e reclassificaram os casos de acordo com critérios padronizados.
“No começo, pensamos que o aumento poderia ser por ser uma vacina nova e haver mais atenção para relatar efeitos, mas, ao analisar os dados, confirmamos uma incidência maior de reações do que nas vacinas rotineiras do calendário infantil”, afirmou.
A Takeda, em nota, pediu cuidado na interpretação dos dados, ressaltando que eles são de um período e local específicos.
“Esses dados isolados não alteram o perfil de segurança da Qdenga, que é sustentado por evidências clínicas, estudos de longo prazo e pesquisas em diferentes cenários”, destacou a empresa.
O laboratório também lembra que casos de anafilaxia estão previstos na bula e todos os episódios, inclusive no estudo, foram monitorados cuidadosamente.
“A aplicação de epinefrina é recomendada para tratar reações alérgicas graves e o sucesso no atendimento mostra que as equipes de saúde locais estavam preparadas”, completou.
A Takeda reforça que a vacinação deve ocorrer em locais de saúde que tenham equipe treinada e materiais para atendimento imediato.
O pesquisador ressalta que o estudo não tem o objetivo de descredibilizar a vacina, mas sim alertar para a importância do acompanhamento após a aplicação, principalmente da primeira dose.
Importante destacar que 12 das 28 reações apareceram nos primeiros 15 minutos e quase 70% em até 30 minutos. “Por isso, é fundamental vacinar em um lugar com profissional habilitado para atender rapidamente uma reação”, disse Moura.
Ele também comentou que provavelmente há subnotificação das reações, pois a vigilância aprimorada é essencial para registrar corretamente os efeitos da vacinação.
Como os casos ocorreram em diferentes crianças e com vários lotes da vacina, não foi possível identificar um padrão específico para as reações alérgicas.
Moura reforça a importância de continuar usando a vacina como ferramenta para reduzir o impacto da dengue no Brasil.
A Qdenga protege contra os quatro tipos de dengue, sendo aplicada em duas doses sob a pele com intervalo de três meses. A Anvisa aprovou o uso para pessoas de 4 a 60 anos, mas o Ministério da Saúde priorizou a vacinação de crianças e adolescentes de 10 a 14 anos. Clínicas particulares também oferecem o imunizante.
A eficácia geral da vacina é de 80% para casos confirmados e 90,4% para diminuir hospitalizações. A proteção varia conforme o tipo do vírus: 69,8% contra o tipo 1, 95,1% contra o tipo 2, abaixo de 50% para o tipo 3 e indefinida para o tipo 4.
Até o fim de 2023, 10 milhões das 15 milhões de doses previstas no contrato com a Takeda já foram aplicadas. A empresa informou que assinou um novo contrato para receber 9 milhões de doses em 2026 e mais 9 milhões até o fim de 2027.
VACINA DO BUTANTAN SUSPENSA
Em maio de 2024, o Ministério da Saúde suspendeu temporariamente o uso da vacina contra dengue do Instituto Butantan, aplicada em dose única, após casos graves de reações adversas. A Anvisa e o Ministério da Saúde continuam avaliando se esses casos foram causados pelo imunizante.
