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terça-feira, 28/04/2026

Operação no Rio que matou 122 pessoas completa seis meses sem solução

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BRUNA FANTTI
Rio de Janeiro, RJ (FOLHAPRESS)

Douglas Christian de Almeida, de 30 anos, acordou após 17 dias de coma, ainda algemado e sem entender por que estava sendo vigiado e impedido de receber visitas. Ele perdeu parte da mandíbula e foi atingido por dois tiros de fuzil durante a Operação Contenção, realizada na Penha e no Alemão, zonas norte do Rio de Janeiro.

No dia 28, completam-se seis meses dessa ação policial, que foi a mais letal do país, resultando na morte de 122 pessoas, incluindo cinco policiais. Douglas responde ao processo em liberdade condicional, usando tornozeleira eletrônica e com horários restritos para sair de casa. Ele mora em Inhaúma, bairro próximo à Penha, e afirma ser inocente.

“A operação começou às 5h da manhã. Às 20h, achei que estava seguro para sair e fui fazer uma entrega para a empresa da minha esposa, que vende produtos naturais. Quando voltava para casa, a polícia disparou mais de dez vezes contra mim, dizendo que eu estava armado, mas os vídeos mostram que nenhuma arma foi encontrada”, relatou.

Os policiais estavam com as câmeras corporais descarregadas e apresentaram uma arma na delegacia, afirmando que ela estava no carro de Douglas.

Para que ele pudesse voltar a falar, médicos retiraram um osso da perna para reconstruir sua mandíbula. Ele só consegue se alimentar com líquidos, pois não consegue abrir a boca nem mastigar e perdeu a maioria dos dentes. O advogado Gil Santiago busca a absolvição no processo contra Douglas, que também responde por outro caso envolvendo uma moto clonada, que ele afirma pertencer a um amigo.

A Polícia Militar não comentou o caso.

Moradores do Complexo da Penha temem que uma nova operação como essa ocorra, especialmente em ano eleitoral. Após a operação, uma pesquisa do Datafolha mostrou que a gestão do governador Cláudio Castro alcançou aprovação recorde, com 40% dos moradores do Rio e região metropolitana considerando o governo ótimo ou bom.

Devido à aprovação, o então secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, foi cotado para um cargo na Câmara dos Deputados. Ele defendeu a operação, afirmando que críticas são politização da questão e ressaltou o apoio da população das comunidades.

A Secretaria de Segurança Pública também destacou que uma pesquisa realizada após a operação mostrou que quase 9 em cada 10 moradores de favelas aprovaram a ação.

Entretanto, moradores dos complexos Penha e Alemão disseram que as operações não trouxeram mudanças reais, não desarticularam o crime e prejudicaram o acesso a escolas e serviços de saúde devido aos tiroteios.

A Secretaria afirmou que a Operação Contenção é contínua e focada nas áreas que concentram o ‘QG do Comando Vermelho’, local onde a ação foi realizada após necessidade apontada pelas investigações. O Ministério Público e a Defensoria Pública acompanharam a operação.

Em março de 2026, o Ministério Público denunciou dez policiais militares do Batalhão de Ações com Cães por manipulação das câmeras corporais e invasão ilegal de residências, além de outras acusações como peculato, violação de domicílio e insubordinação. Alguns policiais estão afastados, mas ainda não foram julgados.

A Promotoria analisa mais de 3.600 horas de gravações das câmeras da Polícia Militar e realiza oitivas dos agentes envolvidos nos confrontos. A maior dificuldade para o avanço das investigações é ligar as mortes diretamente aos policiais, já que os registros não especificam os responsáveis.

A Defensoria Pública reclama da falta de envio das imagens pela Polícia Civil, que, por outro lado, afirma ter cumprido determinação do Supremo Tribunal Federal ao encaminhar as imagens para a Promotoria e Polícia Federal.

O órgão investiga relatos de abusos, ameaças e impedimento de socorro durante a operação.

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