JOSUÉ SEIXAS
RECIFE, PE (FOLHAPRESS)
Desaparecimentos e mortes na Rota dos Milagres, que inclui as cidades turísticas de São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras e Passo do Camaragibe, no litoral alagoano, estão ligados a criminosos que se refugiaram fora do estado, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas.
Nos últimos dois anos, 14 pessoas desapareceram e sete corpos foram encontrados na região.
A maioria dos casos está relacionada ao Comando Vermelho (CV), a facção dominante no tráfico de drogas local. A participação do Primeiro Comando da Capital (PCC) também é investigada, especialmente em casos de execuções dentro da disputa entre essas organizações criminosas.
A polícia acredita que José Emerson da Silva, 41 anos, conhecido como Nem Catenga, esteja no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Ele é considerado o principal líder do CV em Alagoas e possui cinco mandados de prisão em aberto.
Subordinado a Nem, de acordo com a polícia, está Kleber Santos da Silva, 32 anos, apelidado de Kebinho, líder do grupo Tropa do Kebinho, que também está foragido no Rio de Janeiro. Este grupo é um braço do CV que age em Alagoas.
Coronel Patrick Madeiro, secretário-executivo de Políticas de Segurança Pública, afirmou que Nem Catenga e Kebinho, mesmo no Complexo do Alemão, comandam e julgam os criminosos ligados à facção que atuam na Rota dos Milagres.
A maioria dos desaparecimentos tem ligação direta com o Comando Vermelho, que utiliza a prática de fazer pessoas sumirem para eliminar desafetos.
Um grupo de mães das vítimas discorda do vínculo dos desaparecimentos com o crime organizado. Embora algumas reconheçam que seus filhos usavam drogas, destacam que eram trabalhadores e exigem apoio e respostas das autoridades.
O Complexo do Alemão tornou-se um centro de comando da facção, abrigando líderes de outros estados buscando proteção.
Em outubro do ano passado, durante a Operação Contenção, 30 dos 100 mandados de prisão foram emitidos pela Polícia Civil do Pará, outro estado com forte presença do CV. A ação em Complexos da Penha e Alemão resultou em 122 mortos.
Na região da Rota dos Milagres, a polícia identificou dois sujeitos responsáveis por repassar e executar ordens, além de um terceiro suspeito vinculado a sepultamentos clandestinos. A facção CV é mais numerosa na área que o PCC.
A Polícia Civil do Rio de Janeiro informou estar focada em identificar e prender narcotraficantes ligados a facções de outros estados que tentam se esconder ou expandir suas atividades no estado. Já foram capturados mais de 500 criminosos dessas condições.
Conflitos aumentam na área
Em 2024, a polícia apreendeu em Maceió um fuzil calibre 5.56 com três carregadores, escondido numa máquina de lavar, enviado do Rio pelo Nem para integrantes do CV na região.
Os confrontos com a polícia têm se intensificado. Até abril deste ano, quatro mortes cometidas por policiais em serviço foram registradas, contra cinco no ano anterior. Não houve registros de letalidade policial nas cidades da Rota dos Milagres em 2024.
No ano passado, a morte do traficante Cícero Batista dos Santos da Silva, 33, conhecido como Coroa Tito, líder do CV na região, foi vista como um possível sinal de redução dos desaparecimentos. Ele foi morto junto com seu segurança, conhecido como Peluxo, ambos envolvidos em homicídios e desaparecimentos marcados por violência extrema, incluindo decapitações e ocultação de corpos.
Apesar das investigações indicarem que a morte fragilizou o CV local, de junho de 2025 a abril de 2026, houve dez novos desaparecimentos e surgiram novos nomes no tráfico.
Igor Diego, diretor da Dracco, e o coronel Patrick Madeiro confirmaram que Coroa Tito respondia a Nem Catenga.
No dia 14, João Vinicius Santos Nunes, conhecido como Detona e membro da Tropa do Kebinho, foi morto em confronto com a polícia. Ele tinha suspeitas de envolvimento em homicídios, sequestros, desaparecimentos e ocultação de cadáveres.
O governador Paulo Dantas celebrou a ação policial e a morte do traficante nas redes sociais como uma resposta ao crime organizado.
No dia 16, nova operação resultou na morte de dois homens que reagiram à abordagem policial. Eles foram ligados ao Comando Vermelho.
A SSP ampliou o efetivo policial para enfrentar o crime, com suporte do Bope e Rotam, que atuam 24 horas na Rota dos Milagres.
Coronel Madeiro declarou que o Estado realizará operações qualificadas, policiamento preventivo reforçado e atividades de inteligência com apoio do Judiciário para melhorar a segurança na região.
