ANDRÉ BORGES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
A proposta do governo federal de elevar a porcentagem de etanol misturado à gasolina para 32% gerou preocupação na indústria de veículos. As montadoras pedem testes técnicos rigorosos para avaliar como essa mudança afetará carros e motos.
Segundo informações da Folha de S.Paulo, o governo decidiu aumentar essa mistura sem consultar os fabricantes. Essa dosagem de 32% é inédita e, pelas normas do setor, deveria ser acompanhada de testes que vão até 34% para garantir a segurança e funcionamento dos motores, mas tais testes ainda não foram realizados.
Até o momento, o Ministério de Minas e Energia não se pronunciou, e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio afirmou que a decisão cabe ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
A reunião para deliberar sobre esse aumento, que estava marcada para o dia 7, foi adiada para o dia 11. O principal objetivo do governo é diminuir a importação da gasolina, que ficou mais cara devido à guerra no Oriente Médio.
Os custos de importar gasolina aumentaram 61% desde o início do conflito, conforme dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP).
Atualmente, a gasolina no Brasil já possui 30% de etanol anidro, chamada de “E30”. Aumentar para 32% seria uma medida temporária de 180 dias, podendo ser estendida.
O Ministério de Minas e Energia estima que essa mudança pode reduzir a necessidade de importação de gasolina em cerca de 454 milhões de litros e diminuir a emissão de gases de efeito estufa em torno de 552 mil toneladas de CO₂.
Testes com a mistura de 30% e 32% de etanol foram feitos em 2025 pelo governo, com o apoio do Instituto Mauá de Tecnologia, envolvendo veículos leves e motocicletas flex e a gasolina.
Na época, os testes para 32% atenderam as exigências legais, que pedem análise para 1% acima do limite autorizado e mais 1% para seguimento das normas técnicas. A intenção era garantir o uso de 30% nas bombas.
No entanto, agora, para ampliar para 32%, não foram realizados testes para 34%, conforme as regras atuais.
As montadoras alertam para possíveis problemas relacionados à corrosão, desgaste e o desempenho dos motores a longo prazo, ressaltando que esses testes demandam tempo e pesquisas aprofundadas.
A Folha teve acesso a uma carta enviada ao Ministério de Minas e Energia pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que também tem o apoio da Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa) e do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças).
O documento destaca que, apesar de apoiar a mistura de etanol na gasolina, teores maiores que 30% precisam de uma validação rigorosa, já que muitos veículos da frota nacional não foram feitos para suportar níveis tão elevados de biocombustível.
A frota brasileira inclui mais de 60 milhões de veículos, entre carros e motos, sendo que cerca de 12% dos carros e 70% das motos usam exclusivamente gasolina.
A carta chama atenção para o fato de que o aumento do percentual de etanol pode afetar componentes como mangueiras e vedações que não foram projetados para essa concentração, reduzindo sua durabilidade. Além disso, o etanol pode causar corrosão em partes metálicas do sistema de combustível.
Se o uso de 32% for aprovado, chegando até 34% conforme a tolerância do mercado, os riscos para motores projetados apenas para gasolina aumentam, pois não há garantias de pleno funcionamento com essa mistura, reforçam as associações.
A Anfavea comentou que está acompanhando o caso com atenção.
Sergio Oliveira, diretor da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, afirmou que a nova mistura foi divulgada pela mídia e que não houve consulta formal ao setor.
Ele ressaltou que a associação apoia o uso do etanol, mas preocupa-se com a falta de discussão sobre o tema. Oliveira mencionou problemas já percebidos com a mistura de 30%, como dificuldades na dirigibilidade e no funcionamento em partidas a frio das motocicletas.
Nos Estados Unidos, a gasolina usada é majoritariamente E10. Na União Europeia, o padrão costuma ser E5 ou E10. Na América do Sul, países como Argentina e Uruguai usam misturas próximas de E12 e E10, segundo a Abraciclo.
