Segundo dados da Polícia Federal, quase metade das fraudes financeiras no Brasil atualmente envolve o uso de inteligência artificial (IA). O uso de deepfakes, que são vídeos e áudios falsificados por IA, aumentou muito entre 2024 e 2025, colocando o Brasil à frente na América Latina nesse tipo de crime.
O Ministério da Justiça e da Segurança Pública observa que os criminosos estão usando técnicas mais sofisticadas de engano, como phishing, vishing e smishing, além da criação de identidades falsas, documentos falsificados e vídeos deepfake.
Redes criminosas no país já operam internacionalmente, usando métodos complexos para lavar dinheiro, como criptoativos, e até envolvendo pessoas dentro de instituições financeiras para abrir contas falsas.
Devido à gravidade e à frequência dessas fraudes, a Polícia Federal intensificou suas operações, passando de 300 ações em 2022 para mais de 1.000 desde 2024.
Numa operação realizada este ano, a Polícia Federal desmantelou um grupo criminoso que usava símbolos da PF para enganar empresários, pedindo dinheiro em troca de favores falsos, utilizando ameaças para extorquir valores.
Criadores dessas fraudes usam também aprendizado de máquina para automatizar ataques e fazer as fraudes parecerem reais. Segundo dados da Serasa Experian, no Brasil ocorre uma tentativa de fraude digital a cada 2,2 segundos, com cerca de 14 milhões de tentativas anuais.
Os criminosos criam vídeos falsos de pessoas públicas ou comuns para promover produtos falsos e pedir doações, usando até a sincronização dos movimentos dos lábios com o áudio falsificado.
Com a IA, eles também imitam vozes de familiares para pedir transferências urgentes de dinheiro, especialmente via Pix, baseando-se em emoções como medo de acidente ou sequestro.
Além disso, a inteligência artificial é usada para falsificar documentos como CNHs e comprovantes, facilitando a criação de contas falsas e empréstimos fraudulentos.
Para criar mensagens muito convincentes e personalizadas para enganar as pessoas, os golpistas usam modelos avançados de linguagem.
Em 2025, a Polícia Federal firmou parceria com a Associação das Empresas de Cartões de Crédito e Serviço (Abecs) para compartilhar dados e combater fraudes bancárias eletrônicas, usando a Plataforma Tentáculos, que integra informações para identificação de criminosos.
A cooperação foca em crimes que envolvem contas bancárias, cartões de crédito e débito, permitindo também troca de informações com polícias estaduais e a participação de mais de 90 empresas financeiras.
Prévenção Contra Golpes com IA
Outra iniciativa, lançada em 2024, é a Aliança de Combate a Fraudes Digitais Bancárias, que reúne o Ministério da Justiça e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) para prevenir e combater fraudes usando IA.
Estima-se que 51% dos brasileiros sofreram algum tipo de fraude ou golpe em 2024, embora muitos casos não sejam denunciados.
Apenas a Febraban registrou quase 300 mil fraudes bancárias nos últimos três anos, com maior incidência entre pessoas com ensino médio ou superior completo.
O uso de canais digitais para transações aumentou bastante, e muitos golpes são feitos por ligação telefônica, aplicativos de mensagens e sites falsos.
O prejuízo com fraudes em 2024 chegou a R$ 52 bilhões, um aumento de 80% em relação a 2023. Os principais golpes são clonagem ou troca de cartão, falso atendimento e pedidos de dinheiro por conhecidos falsos.
Tipos Comuns de Golpes com IA
- Conta Segura: Criminosos se passam por autoridades policiais por telefone para convencer a vítima a transferir dinheiro para uma conta falsa.
- Sextorsão: Chantagem com ameaças de divulgar fotos ou vídeos manipulados para exigir pagamento.
- Falsa Central: Golpes por telefone ou mensagens usando voz falsa para induzir a instalação de apps maliciosos ou passar senhas.
- Cobrança Falsa: Golpe cobrando dívidas inexistentes com ofertas falsas de desconto.
- Falsa Taxa de Entrega: Mensagens falsas sobre taxas para liberação de encomendas com links para sites fraudulentos.
- Falso Advogado: Criminosos pedem pagamentos para falsas taxas judiciais ou heranças, usando voz e fotos falsificadas.
- Golpe da Aposentadoria: Contato falso oferecendo benefícios para pedir dados ou dinheiro.
- Falso Perfil Virtual: Uso de fotos e números falsos para pedir dinheiro a amigos e familiares.
- Golpe do Pix: Transferência seguida de pedido de devolução a chave Pix falsa e uso de mecanismo para estornar o pagamento original.
- Golpe do Amor: Falsos perfis criam laços afetivos para induzir a transferências financeiras.
- Golpe do Falso Boleto: Envio de boletos falsificados para contas diferentes das verdadeiras.
Como Se Proteger
Fabro Steibel, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio, explica que IA facilita a criação em massa de golpes mais convincentes em texto, áudio e sites.
Ele recomenda desconfiar de contatos online, ativar autenticação em dois fatores, limitar permissões de apps e monitorar sinais de fraude como movimentações estranhas na conta.
Julia Baroli Sadalla, advogada e professora, reforça evitar compartilhamento de dados pessoais, desconfiar de contatos urgentes e verificar identidades por canais oficiais antes de agir.
Recomenda-se desligar chamadas suspeitas e retornar por números oficiais, criar senhas verbais com familiares para combater golpes como o falso sequestro, e agir rápido ao identificar tentativas de fraude.
Essas medidas ajudam a proteger patrimônio, reputação e saúde emocional.
