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quinta-feira, 28/05/2026

Cidades oferecem remédios para emagrecer antes do SUS e discutem custos e prioridades

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LUIZA SOUTO
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)

Algumas cidades brasileiras começaram a disponibilizar, em sua rede pública de saúde, medicamentos para tratar a obesidade, como a semaglutida e a tirzepatida, mesmo antes de o SUS (Sistema Único de Saúde) incluí-los oficialmente. Esse movimento traz à tona discussões sobre prioridades, gastos públicos e desigualdade no acesso a avanços médicos.

A introdução da semaglutida no Rio de Janeiro foi o ponto inicial para essa iniciativa. Além da capital carioca, municípios como Urupês e Sorocaba, em São Paulo, já possuem programas com esses remédios, enquanto cidades como Palmas, Cuiabá e Feira de Santana, assim como o estado de Santa Catarina, estão avaliando a adoção dessas medidas.

Esse cenário se insere no contexto de crescimento global do mercado de medicamentos para obesidade, previsto para alcançar US$ 150 bilhões (aproximadamente R$ 760 bilhões) até 2030, segundo a Morgan Stanley.

Por outro lado, capitais como São Paulo, Belo Horizonte, Goiânia, Recife, Porto Velho, Vitória, Rio Branco e Porto Alegre informam que seguem somente as orientações do governo federal.

Especialistas em saúde afirmam que a iniciativa isolada de alguns municípios revela uma falha nacional no enfrentamento da obesidade, que afeta 26% da população adulta brasileira, conforme dados do Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico).

Fabio Trujilho, da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade), destaca que a ação pode ampliar o acesso ao tratamento, que deve ser personalizado e acompanhado de mudanças no estilo de vida. “Nada impede que municípios criem programas mais completos, incluindo remédios para obesidade”, afirma.

No entanto, essa avançada nos municípios ocorre sem o aval da avaliação federal, que é feita pela Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias), órgão criado em 2011 para orientar o Ministério da Saúde em decisões sobre inclusão de medicamentos no SUS. Essa avaliação considera evidências científicas e análises econômicas comparando benefícios e custos.

Em agosto de 2025, a Conitec recomendou não integrar a semaglutida ao sistema, citando impacto financeiro alto, estimado em até R$ 7 bilhões em cinco anos, e dúvidas quanto ao tempo de uso. O órgão ressalta que o tratamento da obesidade deve focar em alimentação adequada, atividade física e acompanhamento psicológico.

Em comunicado, a Conitec afirma que seu trabalho “assegura que a população brasileira tenha acesso ao melhor em tratamentos e medicamentos, fundamentado na ética e responsabilidade com recursos públicos” e destaca que realiza “um dos processos mais transparentes do mundo”.

Mesmo sem uma diretriz federal, estados e municípios têm autonomia para criar políticas próprias usando recursos locais.

No Rio de Janeiro, a prefeitura investiu R$ 42,4 milhões para adquirir semaglutida. O secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, informou à Folha que a decisão reflete a gravidade da obesidade, que “causa muitas internações e mortes”.

Em Urupês, no interior de São Paulo, foram destinados cerca de R$ 200 mil para comprar tirzepatida. A prefeitura justifica a ação pelo alto índice de sobrepeso da população, cerca de 43%. Declara que a adoção do protocolo local é um “exercício legítimo da competência constitucional de organização da rede local de saúde”.

Cristina Ruas, farmacêutica e doutora em saúde pública pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), acredita que antes de focar só em medicamentos, o SUS deveria priorizar ações estruturais como educação alimentar, taxação maior sobre alimentos ultraprocessados e subsídios para baratear alimentos naturais.

Segundo ela, o avanço isolado desses programas municipais pode distorcer as prioridades no futuro.

“Vejo isso mais como uma decisão eleitoral, porque o Ministério da Saúde está se organizando com a Fiocruz e a OMS [Organização Mundial da Saúde] para produzir insumos farmacêuticos aqui, já que o lucro desses remédios vai para o país de origem. Por que os municípios querem se antecipar?”, questiona.

Apesar das críticas ao avanço sem avaliação federal, especialistas de saúde reconhecem a urgência do tema.

Reinaldo Guimarães, vice-presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), admite que a obesidade é uma prioridade e que os novos remédios trazem uma “revolução terapêutica”, mas alerta que a distribuição deve estar vinculada a uma “linha de cuidado” adequada.

Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), defende que o ideal seria uma política nacional com decisão centralizada. Porém, ele reconhece que devido às grandes diferenças financeiras no país, “é compreensível que municípios possam agir de forma antecipada”.

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