JÉSSICA MAES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Um ano depois dos grandes incêndios que marcaram o Brasil, a área queimada em 2025 caiu 58%, chegando a 127 mil km². Em 2024, com muitos meses de seca e queimadas fora de controle, o total chegou a 302 mil km².
Esses números são da segunda edição do Relatório Anual do Fogo no Brasil, divulgado pela rede de pesquisadores MapBiomas.
Apesar da melhora, a área ainda é muito grande, quase metade do estado de São Paulo (248 mil km²) ou a soma das áreas de Santa Catarina (95 mil km²) e Rio Grande do Norte (52 mil km²).
A maior redução aconteceu na Amazônia, que teve seu menor índice desde 1985. Em 2025, o bioma perdeu 31,4 mil km² para o fogo, contra 158,2 mil km² no ano anterior.
Ane Alencar, diretora de Ciências do Ipam (Instituto de Pesquisa da Amazônia) e coordenadora do MapBiomas Fogo, comenta que a queda ocorreu por vários motivos.
“O clima teve um papel importante. A época de chuvas demorou mais para chegar e em parte da região ainda choveu até abril ou maio, o que ajudou a frear o avanço das queimadas”, explica.
Ela também destaca que a redução no desmatamento ajudou, pois diminui as fontes que iniciam o fogo. “Em anos secos, mesmo com menos desmatamento, o fogo pode se espalhar facilmente”, completa.
A pesquisadora ainda menciona as ações de controle e prevenção, fiscalizações e a pressão do STF para que os estados criem planos eficazes contra queimadas.
Em 2025, o cerrado representou 69% da área queimada, a Amazônia 25%, seguida por caatinga (4%), mata atlântica (2%), pantanal (1%) e pampa (0,1%).
Na análise dos últimos 40 anos, mais da metade das áreas afetadas pelo fogo volta a queimar em até quatro anos. A Amazônia tem a maior frequência de retorno rápido, com 31,6% da área queimada voltando a sofrer incêndios em até dois anos.
Vera Arruda, do Ipam e do MapBiomas, explica que o fogo age de formas diferentes nos biomas mais afetados.
“A Amazônia é um bioma florestal que não está acostumado ao fogo. Os incêndios aumentaram e causam degradação, deixando a floresta mais vulnerável a novos incêndios”, comenta.
Já o cerrado é adaptado a incêndios naturais causados por raios. “Hoje, porém, a maioria das queimadas é causada pelo homem, o que altera o padrão do fogo e aumenta a frequência e extensão das áreas queimadas”, afirma Arruda.
O pantanal, também adaptado ao fogo natural, foi o bioma proporcionalmente mais atingido, com 69% de sua área queimada em 2025.
Quando o fogo ocorre na intensidade certa, em biomas adaptados, pode ser benéfico. Mas em condições de seca e fogo frequente, até as plantas resistentes não sobrevivem.
Ane Alencar alerta que os períodos secos mais intensos aumentam o risco de incêndios graves e que a preparação para fenômenos climáticos como o El Niño é essencial para evitar crises como as de 2023-2024.
Ela destaca que controlar o uso do fogo é tão importante quanto entender a inflamabilidade da paisagem para prevenir queimadas.
Historicamente, 71,5% do fogo no Brasil atinge vegetação nativa, especialmente florestas, campos, savanas e áreas pantanosas. Em 2025, esse percentual subiu para 79%, totalizando 100 mil km², com o cerrado sendo a área mais queimada dentro dessas vegetações, com 86% do fogo no bioma.
