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quinta-feira, 06/08/2026

Ansiedade lidera causas de incapacidade em crianças brasileiras de 5 a 9 anos

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CLÁUDIA COLLUCCI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Antes dos dez anos, muitas crianças no Brasil já enfrentam algum tipo de limitação causada pela ansiedade, mais do que por qualquer outra enfermidade física, segundo a maior pesquisa sobre saúde mental de jovens no país.

O estudo, divulgado na revista The Lancet Regional Health – Americas, utilizou dados do GBD 2023 (Estudo Global da Carga de Doenças) e revelou que mais de 15 milhões de jovens brasileiros entre 5 e 29 anos sofrem com pelo menos um transtorno mental — representando 20,91% deste grupo populacional.

Outros 2,5 milhões (3,36%) têm transtornos relacionados ao uso de substâncias. Esta é a primeira vez que os dados são apresentados em faixas etárias específicas, divididas a cada cinco anos. A pesquisa é liderada pelo psiquiatra Christian Kieling, da UFRGS e do Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre.

Kieling destaca a importância de analisar infância e adolescência separadamente para criar políticas públicas eficazes. “Ao olhar essas fases como um todo, conseguimos planejar serviços adequados para cada idade, evitando aplicar tratamentos destinados a adultos para crianças pequenas.”

A depressão é menos comum antes dos 14 anos, aumentando principalmente entre as meninas a partir dessa idade. O consumo de álcool cresce mais entre os meninos.

O estudo também aponta uma falha no sistema de saúde ao estabelecer o corte de atendimento aos 18 anos, justamente quando os jovens enfrentam maiores mudanças na vida. “Descontinuar o atendimento nessa fase pode prejudicar o cuidado com a saúde mental”, avalia Kieling.

Entre 5 e 9 anos, mais de 10% das crianças têm pelo menos um transtorno mental, número que cresce com a idade, alcançando quase 25% entre 25 e 29 anos.

Em São Paulo, as internações por transtornos mentais em crianças e adolescentes aumentaram 98,3% na faixa de 5 a 9 anos entre 2020 e 2025, o maior crescimento entre todas as idades.

Comparando mais de 300 condições de saúde analisadas pelo GBD, os transtornos de ansiedade são a principal causa de incapacidade em todas as faixas etárias. A partir dos 15 anos, ansiedade e depressão lideram o ranking, principalmente entre mulheres, enquanto álcool e drogas são mais comuns entre os homens após os 20 anos.

Kieling explica que a ansiedade se manifesta de formas diferentes ao longo da vida: ansiedade de separação na infância, ansiedade social na adolescência, e ansiedade generalizada ou pânico na fase adulta.

Entre 20 e 29 anos, as mulheres apresentam índices de ansiedade mais elevados, conforme dados globais do mesmo grupo de pesquisadores. “O Brasil se destaca pelos altos índices de ansiedade, especialmente entre mulheres,” destaca Kieling.

O estudo também revela dados sobre suicídio entre jovens brasileiros: 5.402 mortes ao ano entre 10 e 29 anos, 77% dos casos são homens. A taxa sobe de 1,24 por 100 mil habitantes aos 10-14 anos para 13,43 aos 25-29 anos. A partir dos 15 anos, o suicídio é a terceira causa de morte prematura.

Claudia Buchweitz, pesquisadora e primeira autora do estudo, ressalta a necessidade de políticas específicas para prevenir suicídios entre jovens do sexo masculino, que historicamente têm menos acesso a serviços de saúde mental. Entre indígenas, as taxas são mais que o dobro da média nacional, indicando falhas em políticas públicas e coleta de dados.

Kieling destaca que mesmo números baixos de suicídio em crianças são inaceitáveis para a sociedade. O aumento dos transtornos mentais na adolescência mostra uma oportunidade para agir cedo, prevenindo o agravamento dos problemas.

As prioridades incluem identificar precocemente os transtornos e garantir acesso ao tratamento, algo que ainda é escasso no Brasil. A maior parte das pessoas busca ajuda apenas em momentos graves, como emergências ou tentativas de suicídio.

Além disso, o estudo aponta a falta de dados regionais: apenas 66 fontes nacionais foram usadas, concentradas em São Paulo e Rio Grande do Sul, com pouca informação do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Buchweitz alerta que a escassez de dados reflete a pouca atenção dada à saúde mental dos jovens no país e reforça a urgência de ação imediata.

Kieling defende que esperar por mais dados não deve impedir a tomada de medidas, pois as condições no restante do país provavelmente são semelhantes.

Os pesquisadores enfatizam a importância de incluir a saúde mental nas políticas para infância e juventude, ainda que o tema não esteja explicitamente contemplado em leis como o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Problemas de saúde mental nem sempre aparecem com diagnósticos formais, mas reconhecer sinais precocemente é fundamental para evitar transtornos mais graves.

Entre as propostas, está ampliar as formas de acesso ao cuidado, envolvendo escolas e serviços comunitários, e garantir transparência no uso dos recursos públicos destinados à saúde mental.

Kieling vê a escola como local estratégico para identificar problemas cedo, mas ressalta que não se pode sobrecarregar apenas esse ambiente.

Como exemplo, cita o Headspace, um serviço australiano que oferece apoio aberto para jovens de 12 a 24 anos, utilizado também em países como Irlanda, Canadá e Dinamarca. No entanto, em países de média e baixa renda, como o Brasil, experiências de grande escala ainda são raras.

Também é destacada uma lacuna na Rede de Atenção Psicossocial (Raps), que foca em casos graves, deixando de atender quadros leves e moderados. Muitas vezes, o atendimento só ocorre em estágios avançados, perdendo a chance de um tratamento precoce.

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