Entre 2011 e 2024, cerca de 64 meninas sofreram violência sexual diariamente no Brasil, segundo dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero. No total, 308.077 meninas com até 17 anos foram vítimas desse tipo de agressão nesse período. Só em 2024, foram reportados 45.435 casos, o que corresponde a uma média mensal de 3.780 registros.
Esses números foram obtidos diretamente do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. A divulgação ocorreu em 18 de maio, em alusão ao Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. O estudo resulta de parceria entre o Observatório da Mulher contra Violência (OMV) do Senado Federal, o Instituto Natura e a Associação Gênero e Número.
A análise mostra que a violência sexual contra meninas até 17 anos aumentou cerca de 29,35% na última década. Em 2020, houve queda de 13,76%, provavelmente devido à subnotificação causada pela pandemia da covid-19. Porém, em 2021, os casos cresceram 22,75%, chegando ao pico em 2023, com alta de 37,22%. Em 2024, a tendência de crescimento seguiu.
O levantamento destaca que meninas negras têm maior vulnerabilidade, representando 56,5% dos casos em toda a série histórica. No ano de 2024, meninas negras, pardas e pretas somaram 52,3% das ocorrências, com 22.553 registros entre pardas e 1.223 entre pretas. Entre meninas brancas foram 16.771 casos, 769 entre amarelas e 342 entre indígenas. Em 3.777 casos, não havia informação sobre raça ou cor.
Autores da violência frequentemente fazem parte da família, como pais, mães, padrastos, madrastas e irmãos. Em média, 31% dos casos entre 2011 e 2024 envolvem agressores com vínculo familiar com a vítima. Beatriz Accioly, líder de Políticas Públicas pelo Fim da Violência contra Mulheres do Instituto Natura, destaca que muitas vezes o perigo está dentro de casa e que a solução requer atenção de profissionais da saúde e educação.
Crianças e adolescentes são o segundo grupo mais afetado pela violência sexual no país, atrás apenas dos jovens entre 18 e 29 anos. Nos primeiros meses de 2025, cruzamento de dados do Sinesp Validador de Dados Estatísticos (VDE) com a Base Nacional de Boletins de Ocorrência (BNBO) indicou 8.662 casos, dos quais 2.776 alcançaram crianças ou adolescentes.
A 19ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública reforça disparidade de gênero nos casos de estupro de vulnerável: em 2024, foram registradas mais de 11 mil vítimas do sexo masculino, enquanto quase 56 mil meninas foram vítimas. Para cada menino vítima, cinco meninas foram vítimas.
O Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, contabilizou 32.742 denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes de janeiro a abril de 2026, um aumento de 49,48% comparado ao mesmo período do ano anterior. As denúncias são gratuitas, sigilosas e atendidas 24 horas pelo número 100.
