Fábio Pescarini
São Paulo, SP (Folhapress)
A diarista Valdirene dos Santos, 56 anos, que mora em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo, precisou comprar uma mochila que se transforma em um banquinho para conseguir sentar no trem da linha 7-rubi, que está sempre muito cheio. Ela usa esse trem todo dia para ir ao trabalho na capital. Muitas vezes, apertada na multidão, ela precisa ceder espaço para vendedores ambulantes.
“A situação piorou muito, este trem está sempre muito cheio, parecia até a rua 25 de Março”, comentou ela, mencionando a famosa rua de comércio popular no centro da cidade. A amiga Maria Ivonde de Sousa, 42 anos, também afirmou: “A cada dia está mais difícil viajar, tem muita gente e não dá nem para se mexer”.
Desde que a empresa TIC Trens começou a operar a linha 7-rubi no final do ano passado, as reclamações aumentaram. Os passageiros falam de atrasos, paradas inesperadas e insegurança.
A linha liga a estação Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, até Jundiaí, que fica a pouco mais de 50 km, e é usada por cerca de 400 mil pessoas por dia.
O presidente da TIC Trens, Pedro Moro, informou que a empresa já fez alguns investimentos e anunciou reformas nas estações, que começarão ainda em 2026, iniciando pela estação Pirituba. Também está prevista uma troca completa da infraestrutura dos trilhos e sistemas de controle, que deve ficar pronta só em 2031.
Com a mudança na concessão, o tempo entre os trens diminuiu de 7 para 5 minutos, e o número de trens em circulação aumentou de 20 para 22, o que gerou mais assentos disponíveis.
Mesmo assim, o sistema atual não deixa os trens chegarem muito perto uns dos outros — eles ficam separados por 1,5 km, o que provoca congestionamento e diminui a velocidade média dos trens.
Com a nova sinalização, a distância entre os trens poderá ser reduzida para cerca de 300 metros. A estação Francisco Morato, uma das principais do trajeto, foi citada.
A reportagem verificou que, até o início de março de 2026, a linha enfrentou pelo menos 25 dias com problemas como atrasos e paralisações, afetando principalmente os horários de pico. Um desses problemas foi uma falha elétrica que causou lentidão por três horas.
Um susto ocorreu quando uma porta do trem abriu fora da estação Piqueri, na zona norte de São Paulo. A empresa explicou que foi um problema técnico e que o sistema chamado SIAP, que impede abertura de portas fora da estação, está sendo implementado.
Em fevereiro, um trem de serviço descarrilou e causou atrasos de até 20 minutos durante quase oito horas.
Também ocorreram atos de vandalismo e roubo de cabos, que a empresa tem tentado controlar com o uso de tecnologia.
Durante uma viagem feita pela reportagem entre Barra Funda e Francisco Morato no horário de pico, as reclamações dos passageiros foram confirmadas. A ida, com pouco movimento, e a volta, com superlotação, mostraram vendedores ambulantes atuando tranquilamente. Os trens estavam limpos e não houve paradas adicionais.
A babá Sônia Maria Mendes, 59 anos, lembrou de uma briga dentro do trem que causou pânico entre os passageiros. “Não tem segurança” afirmou ela. Outra passageira, Heloísa Cardoso, 18 anos, que mora em Perus e usa o trem para trabalhar e estudar, disse que sempre viaja em pé e nunca consegue sentar.
Na viagem, foram vistos apenas dois seguranças nas plataformas, um em Francisco Morato e outro na Barra Funda, mas nenhum dentro dos trens.
Segundo Pedro Moro, na época da CPTM, a Polícia Militar acompanhava os trens, mas isso não ocorre mais devido à operação privada atual. Funcionários também deixaram a empresa para outras funções, embora novos seguranças estejam sendo contratados, um processo que demora cerca de 90 dias.
A empresa também tem investido em câmeras com inteligência artificial e treinamento para a equipe.
Avaliação dos usuários
Uma pesquisa feita pelo Instituto Datafolha, contratada pela TIC Trens, mostrou que, dos oito aspectos avaliados, apenas o atendimento ao passageiro (62,91%) e a informação (58,2%) receberam mais de 50% de avaliações boas ou excelentes.
Foram entrevistadas mil pessoas com mais de 16 anos entre 23 e 29 de abril. Usuários novos na linha não participaram.
a média geral de satisfação foi de 47,2%, com destaque negativo para acessibilidade, que teve apenas 39,2% de avaliações positivas.
O conforto foi avaliado positivamente por 48,65% dos passageiros, mas apenas 16% consideraram que o número de pessoas nos trens estava adequado.
Índice de avaliação da linha 7-Rubi
- Primeiro semestre de 2026
- Rapidez na viagem: 49,08%
- Conforto: 48,65%
- Confiabilidade: 43,92%
- Segurança contra acidentes: 38,79%
- Segurança pública: 38,61%
- Atendimento ao passageiro: 62,91%
- Informação ao passageiro: 58,29%
- Acessibilidade: 39,2%
A segurança pública teve um indicador baixo, com 38,61% de avaliações boas ou ótimas. Apesar disso, 70% consideram bom o tempo de abertura das portas do trem.
A TIC Trens explicou que esses dados são usados para calcular uma nota geral da operação, levando em conta o peso de cada aspecto no contrato. O conforto e a confiabilidade têm o maior peso, de 20% cada.
O presidente Pedro Moro afirmou que apesar dos problemas, ninguém precisou abandonar o trem e andar sobre os trilhos.
A Artesp, agência que regula as concessões, acompanha a transição do serviço e avalia o desempenho e ocorrências.
A Concessão
- O leilão da linha 7-rubi, parte do projeto de trem entre São Paulo e Campinas, foi vencido em fevereiro de 2024 pelo consórcio C2 Mobilidade Sobre Trilhos.
- Esse consórcio é liderado pela Comporte, uma empresa brasileira ligada à família Constantino, fundadora da Gol, em parceria com a chinesa CRRC, que é a maior fabricante ferroviária do mundo.
- A concessão foi feita com duração de 30 anos e no modelo de parceria público-privada (PPP).
