BRUNA FANTTI
FOLHAPRESS
Uma isca eletrônica escondida entre os remédios roubados ajudou a polícia a descobrir, poucos dias após o crime, que uma carga avaliada em R$ 575.675 estava no Aeroporto Internacional de Brasília. Imagens mostraram que o comerciante Umberto Xavier de Lima, 70 anos, foi o responsável por enviar os remédios para o Distrito Federal. A carga, destinada à Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, foi roubada no dia 2 de abril de 2026 por homens armados.
Entre os medicamentos roubados havia caixas de Rinvoq, indicado para pacientes adultos com artrite psoriásica grave que não respondem a outros tratamentos. O medicamento é caro, custando cerca de R$ 8.000 por caixa com 30 comprimidos.
Este caso, inicialmente parecido com uma simples receptação, revelou-se parte de um esquema maior. Xavier de Lima foi preso em 21 de julho, um dos cinco alvos detidos na Operação Metástase, realizada pela Polícia Civil do Rio. A organização criminosa interestadual se especializou em roubar medicamentos oncológicos e imunossupressores.
De acordo com a investigação, os remédios eram revendidos tanto a hospitais privados quanto à rede pública de saúde. O grupo contava com apoio armado do TCP (Terceiro Comando Puro) e movimentou R$ 33 milhões entre 2025 e 2026, realizando cerca de 40 roubos nesse período.
“Os criminosos roubam remédios que muitas vezes são destinados à rede pública de saúde. Os roubos são feitos de forma muito violenta, com uso de fuzis e batedores”, explicou o delegado André Prates. Ele destacou que o crime não afeta apenas bens materiais, mas prejudica diretamente pacientes que dependem desses medicamentos para seus tratamentos.
Xavier de Lima havia prometido se apresentar à delegacia, mas não compareceu. Seu advogado, Edmilson Silva Pereira, solicitou habeas corpus preventivo, que foi negado pela Justiça em 6 de julho. Procurado, o advogado disse que enviaria um posicionamento.
Outro preso é Carlos Roberto Fernandes, detido em São Paulo. A polícia também encontrou armas ilegais em sua casa. Fernanda Rodrigues França, integrante da rede de receptores, estava com mandado de prisão em aberto. Seu companheiro, Guilherme Silva Lopes de Sena, foi preso em flagrante por manter medicamentos controlados sem autorização.
Stefano Montovani Fernandes é apontado como chefe da quadrilha, responsável por solicitar os roubos. Parte do grupo também obtinha informações internas sobre rotas e cargas ao recrutar funcionários de transportadoras.
Foram cumpridos cinco mandados de prisão preventiva e 97 de busca e apreensão em quatro estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás e Pará. As operações incluíram o Complexo da Maré, conhecido por conflitos violentos, onde foram encontrados barricadas em chamas.
A Justiça bloqueou R$ 30 milhões em contas bancárias e confiscou imóveis, carros de luxo e outros bens usados para ocultar patrimônio. Em Santo André, um dos presos tinha um Jaguar cheio de remédios contra o câncer.
Ao todo, 25 empresas de fachada nos quatro estados serviam para camuflar a origem dos remédios, usando transportadoras, entregadores e intermediários.
O impacto da operação no Complexo da Maré foi sentido na comunidade. A Secretaria Municipal de Saúde informou que duas unidades básicas suspenderam atividades e avaliavam reabrir no mesmo dia, enquanto outras duas mantiveram o atendimento, mas cancelaram visitas domiciliares.
