ANDRÉ FLEURY MORAES
FOLHAPRESS
O Ministério Público de São Paulo suspeita que o ex-comandante-geral da Polícia Militar, José Augusto Coutinho, não investigou adequadamente o vazamento de informações secretas sobre operações contra o PCC (Primeiro Comando da Capital), mesmo após receber alertas sobre o problema.
Essa denúncia foi feita pela Promotoria de Justiça Militar durante um inquérito que analisa a possível participação de policiais da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) com a facção criminosa.
A Promotoria não acusa o oficial de ter ligação direta com a organização criminosa, mas sim de negligência ao não agir contra os atos ilegais de seus subordinados enquanto comandava a Rota, entre 2020 e 2021.
Essa suspeita surge após depoimento do promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado), que há anos investiga o PCC. Gakiya afirmou ter alertado o chefe da Rota na época sobre os vazamentos, sem que fossem tomadas medidas.
A defesa do coronel Coutinho disse que ainda não teve acesso ao processo, mas garantiu a integridade do oficial, que tem 34 anos de carreira e nunca enfrentou investigações por irregularidades.
Coutinho deixou o cargo em 16 de abril, após ser nomeado pelo ex-secretário Guilherme Derrite (PP). A coronel Glauce Anselmo Cavalli, a primeira mulher a comandar a PM, assumiu o posto.
O documento da Promotoria, do fim de março, foi enviado para a segunda instância devido ao foro especial do coronel à época dos fatos.
A Secretaria de Segurança Pública (SSP) afirmou que não comenta investigações em andamento por questões legais, mas garantiu que os casos são tratados com rigor técnico, respeito ao processo legal e às garantias individuais.
Segundo Gakiya, o núcleo de vazamentos estava dentro da Rota, algo surpreendente, pois antes existia a crença de que a Rota não tinha qualquer conivência com esses atos.
Em 2020, um dos principais alvos da operação contra o PCC, Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta, conseguiu fugir da prisão, indicando que alguém teria vazado informações.
Anos depois, um informante protegido contou a Gakiya que policiais da Rota e um agente penitenciário tinham detalhes da facção e que áudios sobre esses vazamentos foram vendidos a Tuta por cerca de 5 milhões de reais, pagos em parcelas.
O promotor afirmou que um dos policiais da Rota teria vendido a gravação que denunciava a fuga de Tuta.
Gakiya relata que houve reunião com o coronel Coutinho em 30 de novembro de 2021, em que informou os fatos, mas o coronel atribuiu o vazamento ao agente penitenciário, que é braço direito do promotor, o que Gakiya contestou devido à confiança nesse agente.
Áudios mostraram que policiais militares da Rota mantinham contato com o informante por meio de um grupo no WhatsApp, compartilhando planilhas financeiras do PCC.
Gakiya não sabe quem são os policiais envolvidos e não tem informações sobre ações tomadas por Coutinho a respeito.
De acordo com o promotor, a última parcela dos 5 milhões não foi paga porque os policiais precisavam informar ao PCC o local onde uma testemunha protegida estava escondida.
Gakiya concluiu que policiais da Rota gravaram uma reunião com essa testemunha e venderam a gravação ao PCC.
