MAURÍCIO BUSINARI
UOL/FOLHAPRESS
Policiais militares interromperam um culto e recolheram tambores e outros instrumentos usados em rituais religiosos em um terreiro de matriz africana em Manaus. O responsável pelo terreiro, sacerdote Heriberto dos Santos Sena Junior, acusa a ação dos policiais de racismo religioso. A Polícia Militar abriu um inquérito para investigar o ocorrido.
O fato aconteceu durante uma cerimônia no Centro Religioso Mina Jêje-Nagô Nossa Senhora da Conceição, localizado na zona norte de Manaus, na noite de sábado. O evento combinava festas juninas e homenagens religiosas. O sacerdote explicou que a celebração marcava o aniversário de 13 anos de uma entidade espiritual cultuada no terreiro, bem como a fundação legal da casa religiosa.
A Polícia Militar foi convocada por uma denúncia de perturbação causada pelo som. Segundo Sena Junior, os agentes foram informados que o som vinha dos tambores e outros instrumentos tradicionais como xequerês, cabaças e sino, sem o uso de aparelhos eletrônicos. O sacerdote pediu prazo para finalização do ritual, pois o encerramento do canto exigia cerca de duas horas segundo a tradição.
Durante a ação, foram apreendidos três tambores, dois xequerês, uma cabaça e um sino. Em vídeo gravado no 6º Distrito Integrado de Polícia, Sena Junior informou que os objetos têm grande valor espiritual e são sagrados. Ele relatou que os policiais manusearam os instrumentos de forma desrespeitosa, apesar dos avisos da comunidade sobre a importância de transportá-los com cuidado.
Há divergência nos relatos sobre a entrada dos policiais no terreiro. Um policial afirmou que os responsáveis autorizavam a entrada, enquanto o sacerdote declarou que a entrada foi feita sem permissão e com apreensão dos tambores.
A Polícia Militar confirmou a ocorrência e ressaltou que respeita a liberdade religiosa e o direito ao culto. A corporação informou que está investigando a conduta dos agentes por meio de um Inquérito Policial Militar, podendo aplicar medidas disciplinares caso sejam identificadas irregularidades.
Uma entidade que representa comunidades tradicionais de terreiro, Aratrama, classificou o episódio como racismo religioso e acionou órgãos de controle. A associação ressaltou que a intolerância religiosa no Amazonas tem raízes históricas e solicitou proteção para essas comunidades.
A liberdade religiosa é garantida pela Constituição Federal, que assegura o direito ao livre culto e protege locais e cerimônias religiosas. A discriminação por motivo religioso é crime previsto em lei e inclui o racismo religioso, que une preconceito racial e religioso, especialmente contra religiões de matriz africana.
Denúncias sobre intolerância religiosa podem ser feitas pelo Disque 100, pelas ouvidorias de direitos humanos, delegacias especializadas, defensores públicos ou Ministério Público. Também é possível buscar orientação em entidades religiosas ou organizações da sociedade civil.
