PAULO SALDAÑA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
Criminosos armados que mataram três pessoas, incluindo um adolescente de 14 anos, numa área de disputa de terras no Amazonas, afirmaram em depoimento à polícia que a família Coelho Diniz, de Minas Gerais, mandou executar o ataque.
Os assassinos usaram um fuzil AR15 e pistolas Taurus na tarde de 25 de abril, no município de Lábrea (AM), localizado a 855 quilômetros de Manaus. Dois suspeitos foram presos poucas horas depois do crime, confessaram o assassinato e indicaram a família como mandante.
Um dos presos, Lucas Pessoa dos Santos, de 26 anos, trabalha nas fazendas da família Diniz na região e disse que o crime foi ordenado por Moisés Diniz, filho do empresário Alex Sandro Coelho Diniz.
A família Coelho Diniz possui uma rede de supermercados, é sócia do Grupo Pão de Açúcar, tem propriedades onde aconteceu a chacina e atua na política. Moisés não ocupa cargos no grupo empresarial.
Lucas, que já foi preso por outro homicídio, afirmou em depoimento que trabalha para os Diniz desde 2020 e recebeu a missão de proteger as terras e o gado contra invasores. Segundo ele, foi ameaçado pela família de duas das vítimas e, sob ordens de Moisés, realizou o ataque em uma emboscada.
Quando interrogado, Lucas afirmou claramente que o mandante era Moisés, seu patrão. No entanto, no dia seguinte em audiência, ele mudou sua versão, alegando ter sido pressionado pela polícia para indicar o responsável, orientação dada pelo seu advogado que também representa o gerente da fazenda dos Diniz.
Moisés Diniz negou qualquer envolvimento e confirmou que Lucas trabalhava para ele, mas disse desconhecer sua participação no crime. Ele afirmou desconhecer conflitos envolvendo seu nome e, por meio de nota assinada pelo advogado Vinicius Soalheiro, negou veementemente qualquer relação com o caso, esclarecendo que não é investigado nem responde a ações judiciais relativas a conflitos agrários.
O pai de Moisés, o empresário Alex Diniz, não respondeu às tentativas de contato feitas na terça-feira (16) e por meio da assessoria de imprensa do grupo.
Alex Diniz é filiado ao PL e suplente do senador Cleitinho (Republicanos-MG). Um dos irmãos dele, o deputado federal Hercílio Coelho Diniz (MDB-MG), não respondeu às mensagens enviadas.
O Grupo Coelho Diniz é proprietário de uma rede de supermercados em Minas Gerais, com faturamento anual estimado em R$ 2,3 bilhões, e detém 24,9% das ações ordinárias do Grupo Pão de Açúcar. A família não tem relação com o empresário Abílio Diniz, que não participa mais da empresa. O Grupo Pão de Açúcar optou por não comentar o caso.
Alex Diniz está na posição de primeiro sucessor de Cleitinho no Senado, caso este concorra e seja eleito para algum cargo nesta eleição. Ele é apoiador do presidente Jair Bolsonaro (PL) e seu nome é ventilado como possível vice em uma chapa do PL em Minas Gerais.
A chacina ocorreu próxima à BR-317, na divisa entre Lábrea e Boca do Acre. A família Diniz possui pelo menos quatro propriedades na área e já foi multada pelo Ibama por desmatamento ilegal, com multas somando até R$ 29 milhões.
A polícia apreendeu uma motocicleta usada no crime, registrada em nome de Paulo Oliveira da Silva, administrador da empresa Agropecuária CD, pertencente a Moisés Diniz, com sede em Governador Valadares (MG) e filiais em Lábrea.
Paulo Oliveira da Silva foi citado pelos autores como alguém ameaçado pela família de duas das vítimas. Ele havia sido preso dez dias antes da chacina por porte ilegal de arma, mas foi liberado após audiência de custódia.
O advogado Pedro Henrique Ramos de Moura defende tanto os pistoleiros quanto Paulo. Após conversa privada com os presos, ele afirmou que eles teriam sido coagidos a confessar e incriminar os mandantes. O advogado não respondeu se ainda representa o administrador das fazendas, que também não respondeu às tentativas de contato.
A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas declarou que o caso foi desmembrado e que foi aberto um inquérito específico para investigar os possíveis mandantes, mas quase dois meses após os crimes, ninguém havia sido oficialmente notificado.
Familiares das vítimas e líderes locais temem que o caso não avance devido ao poder da família envolvida.
A região tem histórico de grilagem e violência; desde 2017, mais de 20 pessoas foram assassinadas segundo a Pastoral da Terra.
Adolescente pediu para não morrer
Lucas e seu comparsa, Edenilson Silva dos Santos, de 34 anos, ficaram escondidos por cerca de cinco horas na mata, perto de uma ponte, esperando o carro de Josias Albuquerque de Oliveira, de 45 anos. Depois, abriram fogo com fuzil e pistolas, conforme descrito no inquérito.
No veículo estavam Josias, seu sobrinho de 14 anos e Antonio Renato Vieira de Souza, de 32 anos. Os três foram mortos; outro ocupante sobreviveu e relatou que o adolescente tentou fugir nadando, pedindo socorro, mas acabou alvejado.
O sobrevivente acionou a polícia, o que favoreceu a rápida captura dos suspeitos ainda no dia do crime. Antes do depoimento na delegacia, os autores já haviam citado a família Coelho Diniz para os policiais que os prenderam.
Ao serem questionados sobre o triplo homicídio e os supostos mandantes, confirmaram que fizeram o crime a mando dos Diniz, que também teriam fornecido as armas e munições.
Na delegacia, Lucas mudou o depoimento, dizendo que era dono das armas, que teriam vindo de barco da Bolívia.
Moisés negou a existência de armamento na fazenda, informando que visita a região de Boca do Acre a cada 60 dias e que esteve lá no início de abril.
Edenilson relatou à polícia que aceitou o emprego prometido por Lucas na fazenda, com salário fixo.
A família de Josias mantém uma disputa fundiária com os Diniz. Josias havia sobrevivido a outro atentado em 2021, crime que permanece sem solução. Uma decisão judicial que favorecia os fazendeiros foi anulada em 2024, o que reacendeu os conflitos.
Torcedor do Flamengo, o adolescente estudava e ajudava na lavoura da família. Sua mãe, Maressa Ferreira, de 31 anos, lamentou a perda dizendo: “Ele era a coisa mais importante da minha vida, e fizeram essa violência com ele. Por que fizeram isso com meu filho? Ele não tinha culpa e pediu para sobreviver.”
O crime aconteceu em área de terras públicas, no assentamento PA Monte, onde o irmão de Josias é assentado.
“Aqui é uma ausência total do Estado. Grandes fazendeiros entram com ações contra os pequenos; recorremos à Justiça, mas a resposta é lenta. E, como sempre, eles usam a violência”, afirmou Cosme Capistano, da Comissão Pastoral da Terra.
