Ana Paula Branco
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Documentos oficiais de uma perícia e depoimentos na Polícia Civil de São Paulo, obtidos pela Folha, desmentem a acusação feita pela Unico sobre um possível vazamento de milhões de dados biométricos envolvendo Serasa Experian.
O laudo pericial indica que não há um banco paralelo de dados biométricos, mas sim uma divergência relacionada ao uso de rotas digitais para acessar servidores.
A investigação começou depois que a Unico acusou a Skill Tecnologia, empresa responsável por conectar clientes à plataforma de identidade digital, de usar um canal exclusivo do Banco do Brasil para validar biometria de outros clientes, como Serasa Experian e ClearSale.
A acusação sugeria que milhões de selfies usadas em operações bancárias teriam sido feitas de modo irregular, levantando suspeitas de uso indevido de dados sensíveis. A polícia realizou busca e apreensão na Serasa no mês passado.
Um laudo contratado pela acusação apontou 1,4 milhão de transações irregulares e estimou que até 22 milhões de brasileiros poderiam ter dados consultados nessa operação.
No entanto, a perícia nomeada pela 9ª Vara Cível de Brasília, feita nos sistemas da Skill, concluiu que não foi encontrado qualquer dado biométrico da Unico na Skill.
A Unico não comentou o caso devido ao sigilo judicial, e a Serasa Experian classificou as acusações como falsas e infundadas. A Skill também não se pronunciou por se tratar de investigação sigilosa.
Especialistas explicam que muitas transações apontadas eram reprocessamentos registrados separadamente. A Skill afirmou à polícia que o aumento de tráfego era uma operação autorizada, não desvio de clientes.
A defesa da Skill disse que a Unico lançou um novo algoritmo e usou imagens já processadas para testá-lo, utilizando a rota do Banco do Brasil para evitar custos extras.
O perito confirmou essa versão, dizendo que os dados faciais pertencem aos titulares e seu uso depende de consentimento específico, conforme a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Executivos da Skill disseram à polícia que a acusação da Unico seria uma reação a uma disputa comercial. A Skill, parceira do Banco do Brasil, passou a atender também a ClearSale, empresa adquirida pela Serasa, concorrente da Unico.
A defesa da Skill afirmou que a movimentação de mercado levou a Unico a romper o contrato abruptamente, criando a narrativa de vazamento para pressionar o pagamento de multas e prejudicar a concorrência.
A investigação policial e a ação cível entre as empresas continuam em andamento.
