ANDRÉ BORGES
FOLHAPRESS
O governo federal está pronto para estabelecer normas para a contratação de hidrelétricas reversíveis, um tipo novo de usina que conta com um reservatório extra em plantas já existentes no país.
Uma decisão sobre as regras para o leilão desses projetos será tomada na reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que ocorre nesta quinta-feira (26) e conta com a participação de representantes de ministérios e do setor elétrico.
O objetivo é que esses projetos possam ser contratados pelo governo a partir de 2027, por meio de leilões.
Uma hidrelétrica reversível funciona como uma grande bateria de água: além de gerar energia como uma usina tradicional, ela consegue armazenar eletricidade. Isso é feito com um reservatório extra situado acima do reservatório principal da usina.
Durante períodos de sobra de energia, como em dias de muito sol ou vento, a hidrelétrica bombeia água do reservatório inferior para o superior, guardando essa energia extra.
Quando a demanda por energia aumenta, como no início da noite, a água é liberada do reservatório superior, passando por turbinas e gerando mais eletricidade, aumentando a capacidade da usina.
Entre o bombeamento e a liberação da água, a usina recupera cerca de 70% a 80% da energia usada. Apesar de perder parte da energia para bombear a água, a usina consegue usar a energia armazenada no momento mais adequado, ajudando a evitar desperdícios e reduzindo a necessidade de ligar usinas mais poluentes e caras, como as térmicas a óleo e carvão.
Essa iniciativa é vista como uma resposta à rápida expansão das fontes de energia intermitentes, como a solar e a eólica, que dependem das condições do tempo e nem sempre coincidem com os horários de maior consumo.
Além disso, o país tem perdido capacidade de regulação hidrelétrica de longo prazo, já que os reservatórios recentes são menores.
O CNPE também avaliará uma resolução para que a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) volte a identificar e desenvolver projetos hidrelétricos com grande armazenamento de água, e não só os chamados projetos a fio d’água, como vinha acontecendo.
Estudos apontam que o Brasil tem potencial para instalar dezenas de gigawatts em projetos reversíveis, especialmente nas regiões Sudeste e Sul, que têm relevo, infraestrutura elétrica e reservatórios favoráveis.
Um levantamento da EPE no Rio de Janeiro identificou 15 locais adequados, após avaliações ambientais.
Países como Austrália, China, Japão, Estados Unidos e países da União Europeia já operam grandes sistemas de armazenamento hidráulico há muitos anos. Na Itália, por exemplo, há cerca de 7 gigawatts instalados em usinas reversíveis, e no Reino Unido, essas usinas ajudam a dar uma resposta rápida e a manter a estabilidade do sistema elétrico.
O Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que pesquisa o tema há anos, já havia indicado ao governo a necessidade de regulamentar o assunto para permitir os leilões.
O modelo é apoiado pela Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage), que reúne 24 das maiores empresas do setor no país, responsáveis por 90% da geração hidrelétrica brasileira.
