Cientistas e defensores do meio ambiente alertaram sobre a ameaça de extinção dos jumentos no Brasil durante uma reunião na Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados realizada na quinta-feira (14). Eles solicitaram a aprovação urgente do Projeto de Lei 2387/22, que proíbe o abate desses animais para consumo, comércio ou exportação.
A população de jumentos no país caiu drasticamente, de 1,3 milhão no final da década de 1990 para apenas 78 mil em 2025, uma queda de 94%, segundo dados da The Donkey Sanctuary, uma organização internacional dedicada à proteção desses animais. Há risco de desaparecimento da espécie até 2030. Essa redução está ligada ao abate para extração da pele, usada na produção do ejiao, um remédio da medicina tradicional chinesa, e para o uso da carne na fabricação de ração animal.
O comércio ilegal desses animais ocorre principalmente no Nordeste, conforme relatado por José Roberto Lima, presidente da Comissão de Medicina Veterinária Legal da Bahia. Os jumentos são capturados em fazendas e levados para frigoríficos, onde são abatidos e exportados sem histórico de saúde ou rastreamento, o que representa risco à saúde devido a doenças como anemia infecciosa equina e mormo.
Relatórios de exportação mostraram que frigoríficos localizados em Amargosa, Simões Filho e Itapetinga, na Bahia, destinam a maior parte dos produtos para a China, Hong Kong e União Europeia.
Eduardo Santurtun, diretor das Américas da The Donkey Sanctuary, ressaltou que, desde 2024, a União Africana baniu o abate de jumentos em 55 países e pediu que o Brasil lidere essa iniciativa na América Latina.
O deputado Célio Studart (PSD-CE), organizador do debate, prometeu intensificar a pressão para que a Comissão de Constituição e Justiça finalize a votação do projeto, que já foi aprovado nas Comissões de Agricultura e Meio Ambiente. Ele informou que, durante os mais de dois anos de espera, cerca de 250 mil jumentos morreram.
A bióloga Patrícia Tatemoto, coordenadora de campanhas da The Donkey Sanctuary, explicou que os jumentos não são adequados para criação em grande escala, mas podem ser usados como animais de estimação, na agricultura familiar e para a preservação da Caatinga. Eles ajudam a controlar plantas invasoras, consomem vegetação que outras espécies não comem, encontram água, disseminam sementes e contribuem para a restauração do ecossistema, conforme estudos publicados na revista Science.
Em nível mundial, existem cerca de 53 milhões de jumentos, dos quais 10% são abatidos para a produção de ejiao. O mercado desse remédio cresceu de US$ 3,8 bilhões em 2015 para US$ 7,2 bilhões em 2022. A demanda por peles aumentou de 1,2 milhão em 2013 para uma previsão de 6,8 milhões em 2027. Pesquisadores buscam alternativas éticas e sustentáveis para o colágeno.
