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Melatonina, o hormônio do sono, pode proteger coração de distúrbios

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Pesquisador alerta que a ação ampla da substância no organismo reforça a necessidade de usos calculados e de maneira personalizada

Coração: pesquisa pode guiar o desenvolvimento de novas drogas para doenças cardiovasculares (MEHAU KULYK/SCIENCE PHOTO LIBRARY/Getty Images)

Após revisar dados de 162 ensaios clínicos, pesquisadores brasileiros concluíram que a melatonina – substância popularmente conhecida como o “hormônio do sono” – pode proteger o coração contra arritmias, doença arterial coronariana, hipertensão e outros distúrbios cardiovasculares.

As conclusões foram divulgadas no International Journal of Molecular Sciences. O trabalho teve apoio da FAPESP e a participação de cientistas das universidades de São Paulo (USP) e Anhembi Morumbi.

“A ação do hormônio sobre a pressão arterial e a frequência cardíaca se dá tanto de maneira periférica nos vasos e no coração, como de modo central no hipotálamo e em outras estruturas do sistema nervoso central. Estudos mostraram o efeito do hormônio até mesmo sobre as mitocôndrias das células, importantes na regulação do sistema cardiovascular”, diz José Cipolla-Netto, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e autor principal do artigo.

Além de dados de trabalhos clínicos e ensaios experimentais sobre o papel cardioprotetor da melatonina, os autores apresentam no artigo uma lista de substâncias capazes de imitar a função do hormônio – tecnicamente chamadas de agonistas dos receptores de melatonina. A seleção foi feita com auxílio de ferramentas de inteligência artificial do tipo machine learning, que permitem analisar uma grande quantidade de dados por métodos estatísticos.

Com a tecnologia, foi possível ainda elaborar ensaios experimentais virtuais com o objetivo de encontrar compostos e quantificar, preditivamente, a sua eficiência sobre um determinado sistema, baseado na sua estrutura e em ensaios prévios.

“Com uso de machine learning listamos substâncias semelhantes à melatonina e verificamos quais delas têm potencial ação no sistema cardiovascular e nos receptores de melatonina. De um conjunto imenso de moléculas, encontramos 780 com ação cardiovascular supostamente semelhante à da melatonina”, afirma.

De acordo com o pesquisador, os dados estão abertos e podem guiar o desenvolvimento de novas drogas para doenças cardiovasculares.

Atuação no metabolismo

Cipolla-Neto coordena um Projeto Temático apoiado pela FAPESP sobre o papel da melatonina na regulação do metabolismo energético.

Recentemente, publicou artigo sobre a ação da melatonina em distúrbios metabólicos, no qual ressalta que a baixa produção desse hormônio pode causar sintomas variados, pois a substância interage com vários sistemas do corpo, como o cardiovascular, imunológico, reprodutor, sistema nervoso central e também o metabolismo energético.

“Havia uma concepção errada de que a melatonina, em humanos, pudesse ser, eventualmente, diabetogênica”, diz.

De acordo com o pesquisador, o hormônio tem efeitos noturnos e diurnos distintos. “À noite, quando o hormônio é fisiologicamente secretado, ele de fato reduz a produção de insulina e induz resistência insulínica, pois nessa fase o indivíduo está dormindo e, portanto, em jejum. A melatonina produzida e que atua à noite, por outro lado, determina, durante o dia, aumento da sensibilidade insulínica, aumento da secreção de insulina pelo pâncreas, estimulada pelas incretinas, o que é necessário para a fisiologia do dia.”

Cipolla-Neto afirma que, dessa forma, ao tomar melatonina à noite, é esperado que haja uma melhora no controle glicêmico. “Isso precisava ser esclarecido. Havia dados, mas permaneciam algumas confusões de interpretação sobre a questão de ela ser pró-insulínica ou anti-insulínica”, diz.

Prescrição criteriosa

O pesquisador alerta que a ação ampla da substância no organismo – seja na regulação do sono, no sistema cardiovascular ou na regulação do metabolismo – só reforça a necessidade de que a reposição hormonal seja cuidadosamente calculada de maneira personalizada.

“É uma atenção a mais que se deve ter. Por isso, faço questão de dizer que melatonina não é uma substância inócua que possa ser tomada ao bel-prazer. Ela é um hormônio e a sua administração deveria ser rigorosamente controlada.”

Para Cipolla-Neto, primeiro é preciso saber se é necessário fazer a reposição hormonal e depois ajustá-la para cada indivíduo de tal forma que a administração da droga seja exclusivamente noturna. A melatonina não pode estar circulando na corrente sanguínea durante o dia.

De acordo com o pesquisador, também é preciso observar os hábitos de sono de cada pessoa. “Aqueles que em geral dormem por muitas horas, provavelmente produzem o hormônio por mais tempo do que os que precisam de menos horas de sono. Além disso, pessoas que são mais produtivas durante a manhã geralmente têm uma fabricação natural de melatonina que começa no início da noite, enquanto as que são mais produtivas à tarde ou noite somente começam a fabricar o hormônio mais tardiamente. Todos esses fatores – além da idade, peso e condição clínica – devem ser levados em consideração na hora da prescrição.”

Estudos clínicos

O grupo de pesquisadores pretende iniciar um estudo, em parceria com o Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graac), com pacientes que por algum motivo não têm a glândula pineal – responsável pela produção de melatonina.

“Por uma concepção errônea da medicina contemporânea, infelizmente, não se prescreve para os pacientes pinealectomizados [que tiveram a glândula removida] a necessária reposição hormonal com melatonina, por incrível que isso possa parecer. A reposição de melatonina é o que deve ser feito quando, por alguma razão, há a retirada ou destruição de uma glândula e, portanto, a ausência dos seus hormônios”, disse.

Em uma primeira fase, o objetivo do estudo será acompanhar os efeitos terapêuticos da reposição da substância nesses pacientes sem a glândula pineal. “A ideia é descrever uma síndrome do paciente pinealectomizado do ponto de vista metabólico, cardiovascular, neurológico e psicológico, além de estudos associados da ritmicidade circadiana e do ciclo vigília-sono”, diz.

Na segunda linha de estudos, agora experimentais, os pesquisadores vão estudar e caracterizar o papel da melatonina materna durante a gestação e lactação para o desenvolvimento, fisiologia e comportamento da prole.

“Serão gerados filhotes em situação de pouca melatonina durante a gestação e vamos avaliar, na prole, nas diversas idades, o desenvolvimento neuropsicomotor, aspectos de aprendizado e memória, o metabolismo, o sistema cardiovascular, o sistema imunológico, aspectos da ritmicidade circadiana da atividade/repouso, vigília/sono”, diz.

Em paralelo, pretendemos estudar os filhos de mulheres que trabalharam no turno da noite durante a gestação. “É a situação social que imita a situação experimental. Então a pergunta é: como é que estão os filhos dessas mulheres que trabalharam à noite durante a gestação? Vamos fazer estudo metabólico e de desenvolvimento neuropsicomotor dessas crianças”, diz.

O artigo Cardioprotective Melatonin: Translating from Proof-of-Concept Studies to Therapeutic Use pode ser lido aqui.

Comentário

Saúde

Covid-19: Oxford inicia nova fase de vacina, com mais de 10 mil pessoas

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As próximas etapas irão avaliar a resposta imune à vacina em pessoas de diferentes faixas etárias e seu funcionamento em um grande número de indivíduos

A avaliação da eficácia de uma vacina é feita pela comparação do número de infecções no grupo controle com o número de infecções no grupo vacinado. Reprodução/Reuters

Nesta sexta-feira, 22, a Universidade de Oxford anunciou o início das fases II e III de sua vacina para o novo coronavírus. De acordo com os pesquisadores, os ensaios clínicos estão “progredindo muito bem” e na próxima etapa 10.260 pessoas, entre adultos e crianças, serão imunizadas no Reino Unido. Esse é considerado o imunizante mais promissor em desenvolvimento por diversos especialistas.

O estudo clínico em humanos da vacina desenvolvida pela universidade começou no início de abril. Na fase I, mais de 1.000 adultos saudáveis receberam a vacina e essas pessoas ainda estão em acompanhamento. A fase II do estudo envolve a expansão da faixa etária e passa a incluir idosos e crianças. Até o momento, apenas adultos com idade entre 18 e 55 anos estavam incluídos nos testes de avaliação da segurança do imunizante.

Agora, os cientistas querem avaliar a resposta imune à vacina em pessoas de diferentes idades, para descobrir se há variação dessa resposta em pessoas idosas ou crianças, que tem um sistema imunológico diferente de adultos saudáveis. Já a fase III do estudo envolve analisar como a vacina funciona em um grande número de pessoas com mais de 18 anos de idade.

Os participantes adultos dos grupos fase II e fase III serão randomizados para receber uma ou duas doses da vacina ChAdOx1 nCoV-19 (contra o coronavírus) ou da vacina MenACWY, que será usada como “controle” para comparação. A vacina MenACWY é usada pra proteger contra uma das causas mais comuns de meningite e sepse e é administrada rotineiramente em adolescentes no Reino Unido desde 2015.

De acordo com os pesquisadores, a razão para usar esta vacina, em vez de um controle salino, é porque efeitos colaterais como dor no braço, dor de cabeça e febre são esperados em quem recebe a vacina contra o novo coronavírus. No entanto, a injeção de solução salina não causa nenhum desses efeitos colaterais e, se ela fosse usada, os participantes estariam cientes de que haviam recebido a nova vacina. Isso poderia impactar nos resultados, pois poderia afetar o comportamento de saúde dos voluntários após a vacinação e levar a um viés nos resultados do estudo.

Como funciona a vacina

A ChAdOx1 nCoV-19 é produzida a partir de um vírus (ChAdOx1), que é uma versão enfraquecida de um adenovírus que causa o resfriado comum em chimpanzés. Ele foi geneticamente modificado para impedir a infecção em humanos. A esse imunizante, foi adicionado material genético usado para produzir proteínas as proteínas Spike do SARS-CoV-2, nome oficial do novo coronavírus.

Essas proteínas são as responsáveis pela entrada do vírus nas células humanas. A expectativa é que após a aplicação da vacina o corpo reconheça e desenvolva uma resposta imune à proteína Spike, que ajude a impedir que o vírus SARS-CoV-2 entre nas células humanas e, portanto, evite a infecção.

Quando sairá o resultado

A avaliação da eficácia de uma vacina é feita pela comparação do número de infecções no grupo controle com o número de infecções no grupo vacinado. Portanto, é necessário esperar que um determinado número de participantes desenvolva o Covid-19. “A rapidez com que atingiremos os números necessários dependerá dos níveis de transmissão de vírus na comunidade. Se a transmissão continuar alta, podemos obter dados suficientes em alguns meses para ver se a vacina funciona, mas se os níveis de transmissão caírem, isso pode levar até 6 meses.”, escreveram os pesquisadores em um comunicado à imprensa.

Financiamento

Na quinta-feira, 21, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA anunciou o financiamento no valor de até 1,2 bilhão de dólares – equivalente a 6,7 bilhões de reais – à farmacêutica AstraZeneca para acelerar o desenvolvimento da vacina de Oxford. Recentemente, a farmacêutica firmou uma parceria com a universidade para viabilizar a produção do imunizante em larga escala caso ele se mostre eficaz.

De acordo com informações do The New York Times, o acordo do governo americano com a farmacêutica é o quarto e de longe o maior contrato de pesquisa de vacinas divulgado pelo departamento. O objetivo é que o dinheiro seja usado para pagar por um ensaio clínico fase III realizado nos Estados Unidos com cerca de 30.000 voluntários. O comunicado afirma ainda que a agência e a AstraZeneca “estão colaborando para disponibilizar pelo menos 300 milhões de doses” aos EUA. A projeção é que as primeiras doses estejam disponíveis já em outubro.

Caso a vacina se prove eficaz, serão necessárias bilhões de doses para imunizar toda a população mundial, já que o coronavírus afetou o mundo todo. O desafio é como garantir uma produção massiva em pouco tempo. Em outro comunicado divulgado também na quinta-feira, 21, a AstraZeneca afirmou ter fechado acordos para garantir a produção de pelo menos 400 milhões de doses e ter capacidade de fabricação garantida para um bilhão de doses. O início da distribuição está previsto para setembro. A empresa disse ainda que discutindo acordos para produção simultânea por outras empresas, incluindo o gigante Serum Institute of India, um importante fornecedor de vacinas para o mundo em desenvolvimento.

 

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Saúde

Covid-19: Corrida para a primeira vacina chegar ao mercado ganha força

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O anúncio da eficácia de medicamento americano em humanos traz esperança para o controle da doença

O PRIMEIRO PASSO – Laboratório Moderna, nos EUA: os resultados animadores inflaram as bolsas David L. Ryan/The Boston Globe/Getty Images

Raríssimas questões são tão unânimes na medicina epidemiológica: a vacina é a arma mais potente contra uma pandemia. Trata-se do único remédio capaz de brecar novas infecções. Desenvolvida em 2009, a vacina contra o H1N1, por exemplo, foi determinante para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciasse o fim da pandemia provocada pelo vírus no ano seguinte. Das 118 fórmulas contra a Covid-19 registradas atualmente pela OMS, oito já estão sendo testadas em seres humanos. Entre elas, há três com tração suficiente para chegar à reta final ainda neste ano, em louvável ineditismo. Até hoje, o tempo recorde tinha sido com o sarampo — o tratamento foi aprovado em 1963, dez anos depois de o vírus ter sido identificado. No que se refere ao prazo de início dos estudos, a data é ainda mais espantosa. Passaram-se apenas três meses desde a identificação do novo coronavírus, na China, e as primeiras pesquisas.

Um passo fundamental foi dado nesta semana. Na segunda-feira 18, a empresa americana de biotecnologia Moderna revelou um sucesso: as oito primeiras pessoas imunizadas com duas doses do fármaco estavam protegidas. “Esses dados, embora iniciais, demonstram que a vacinação provoca uma resposta imunológica ao vírus semelhante à produção de anticorpos que ocorre no sangue de pacientes já recuperados da doença”, disse Tal Zaks, diretor médico da Moderna. O estudo faz parte da chamada fase 1, ainda restrito, afeito a avaliar a segurança da vacina. O grupo de voluntários saudáveis que recebeu a imunização desde março não apresentou efeitos colaterais graves. Serão necessários testes de maior abrangência para comprovar a eficácia em larga escala.

EXEMPLO – H1N1: a imunização é fundamental para o fim do alastramento do vírus Mauro Pimentel/AFP

Os testes em humanos, é claro, brotam depois de vasto trabalho com animais. Em ratos, verificou-se que a vacina, ancorada no material genético do Sars-CoV-2, consegue impedir a replicação do vírus nos pulmões. As boas notícias aceleram os trabalhos. A Moderna prevê para julho o início de uma etapa de avaliação com milhares de voluntários. O laboratório Pfizer e a BioNTech desenvolvem um produto com potencial para ser lançado em setembro. A Universidade de Oxford, na Inglaterra, concluirá os testes de seu medicamento em um grupo grande de pessoas em três meses. A agilidade é atribuída à urgência, é óbvio, bem como à experiência dos pesquisadores com o desenvolvimento das vacinas para Sars e Mers, também da espécie coronavírus, durante suas respectivas epidemias, em 2003 e 2012 — elas nunca chegaram ao mercado porque, quando ficaram prontas, depois de longa jornada de investigação, os surtos já haviam sido contidos e os investimentos foram suspensos. No Brasil, há dois estudos em andamento. O do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), que começou os testes em camundongos, a caminho de ser aplicado em humanos, e o da Fiocruz Minas.

Considerada a bala de prata contra o coronavírus, a movimentação científica em torno da vacina mexe com os mercados financeiros, em evidente reflexo dos humores da sociedade, especialmente agora, com o mundo paralisado. As ações da Moderna subiram 20%, em média, nas bolsas americanas, com a animadora notícia. O nó, ainda longe de ser desfeito: a vacina, quando aprovada pelas autoridades sanitárias, será distribuída com a patente quebrada ou será controlada pelo fabricante? Não se sabe, mas estima-se que possa ser distribuída rápida e globalmente, a valores de custo. Há, portanto, uma boa e ampla avenida para seguir.

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Saúde

Mesmo com mudança em protocolo, rede pública do DF mantém uso de medicamento contra coronavírus apenas em casos graves

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Na quarta (20), Ministério da Saúde orientou uso da cloroquina em pacientes com quadro leve de Covid-19. Segundo Secretaria de Saúde, na capital não haverá mudança.

Uso da cloroquina contra o coronavírus ainda é pesquisado no mundo todo — Foto: Reprodução/TV Globo

A Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) informou que não vai mudar o protocolo de uso da cloroquina contra a Covid-19, mesmo após nova recomendação do Ministério da Saúde (MS). Segundo a pasta, será mantida a regra publicada em abril, que só permite o uso do medicamento em casos graves e críticos.

A nova orientação foi publicada pelo MS na quarta-feira (20). A pedido do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), a pasta orientou o uso do remédio até em casos leves, mesmo que não haja estudos indicando a eficácia da cloroquina contra a Covid-19. O ato provocou críticas de especialistas (veja mais abaixo).

Segundo a Secretaria de Saúde do DF, “o medicamento somente poderá ser utilizado na rede pública dentro dos hospitais para pacientes internados”.”Se o médico optar pela indicação de uso desta substância, a família ou responsável precisa ser consultada e assinar o Termo de Consentimento Livre Esclarecido para uso compassivo da cloroquina na infecção por Covid-19.”Ainda de acordo com a pasta, o termo também precisa ser assinado pelo médico, responsável pela prescrição. A SES-DF afirma que “o medicamento só pode ser liberado depois do preenchimento do documento que fica na unidade hospitalar”.

A portaria que permitiu o uso da cloroquina para combater a Covid-19 na capital foi publicada no Diário Oficial do DF em 13 de abril. O texto deixa explícito que o uso só pode ser realizado em casos graves e traz o termo de consentimento que deve ser assinado por médico e paciente (veja abaixo).

Termo de consentimento para uso da cloroquina contra Covid-19 no DF — Foto: SES-DF/Reprodução

Termo de consentimento para uso da cloroquina contra Covid-19 no DF — Foto: SES-DF/Reprodução

Orientação do governo federal

Nesta quarta, o Ministério da Saúde emitiu uma nova orientação que libera o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no Sistema Único de Saúde (SUS) até para casos leves de Covid-19. Até então, o protocolo previa os remédios apenas para os casos graves.

A mudança no protocolo era um desejo do presidente Jair Bolsonaro, defensor da cloroquina no tratamento da doença causada pelo novo coronavírus. E também foi motivo de atrito entre Bolsonaro e os últimos dois ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich – em menos de um mês, os dois deixaram o governo.

No novo protocolo divulgado pelo ministério, não aparece assinatura de nenhuma autoridade

O texto mantém a necessidade de o paciente autorizar o uso da medicação e de o médico decidir sobre a aplicar ou não o remédio. A cloroquina não está disponível para a população em geral.

Eduardo Pazuello, ministro da Saúde em exercício — Foto: Júlio Nascimento/PR

Eduardo Pazuello, ministro da Saúde em exercício — Foto: Júlio Nascimento/PR

O termo de consentimento, que deve ser assinado pelo paciente, ressalta que “não existe garantia de resultados positivos” que “não há estudos demonstrando benefícios clínicos”.

O documento afirma ainda que o paciente deve saber que a cloroquina pode causar efeitos colaterais que podem levar à “disfunção grave de órgãos, ao prolongamento da internação, à incapacidade temporária ou permanente, e até ao óbito”.

Em sua conta em uma rede social, o presidente Jair Bolsonaro comentou o novo protocolo. “Ainda não existe comprovação científica. Contudo, estamos em guerra: pior do que ser derrotado é a vergonha de não ter lutado”, afirmou Bolsonaro.

Críticas

A nova orientação também foi alvo de críticas de associações médicas e da Organização Mundial da Saúde (OMS). O diretor de emergências da OMS, Michael Ryan, disse que a cloroquina e a hidroxicloroquina podem causar efeitos colaterais e que não têm eficácia comprovada no tratamento da Covid-19. Ele também afirmou que as substâncias só devem ser usadas contra a Covid-19 em ensaios clínicos.

“Todas as nações, particularmente aquelas com autoridades reguladoras, estão em posição de aconselhar seus cidadãos sobre o uso de qualquer droga. Entretanto, sobre a hidroxicloroquina e a cloroquina, que já são licenciadas para muitas doenças, eu diria que, até esse estágio, nem a cloroquina nem a hidroxicloroquina têm sido efetivas no tratamento da Covid-19 ou nas profilaxias contra a infecção pela doença. Na verdade, é o oposto”, afirma Michael Ryan.

Em nota, médicos ligados a universidades públicas e à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) disseram que o uso do medicamento sem a devida comprovação “[…] é uma falsa solução, que pode acarretar elevados riscos, incluindo morte, aos pacientes, por efeitos colaterais conhecidos e previsíveis”.

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Saúde

CORONAVÍRUS ECONOMIA BRASILEIRA GOVERNO BOLSONARO IMPOSTOS

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Dados são da Secretaria de Saúde. Segundo pasta, distúrbios no coração são os mais comuns e mais frequentes em casos de morte.

Imagem de microscópico mostra o novo coronavírus, responsável pela doença chamada Covid-19 — Foto: NIAID-RML/AP

Dos 5.271 infectados pelo novo coronavírus no Distrito Federal até a noite de quarta-feira (20), 16,4% possuíam comorbidades – doenças capazes de agravar o quadro clínico. As informações estão no boletim divulgado pela Secretaria de Saúde do DF (SES-DF).

Segundo a pasta, 864 pacientes tem outras doenças que são um risco a mais para quem contrai o vírus. Os pacientes com comorbidades preocupam os médicos porque são mais vulneráveis à Covid-19.

Dados da Secretaria de Saúde apontam que, das 73 mortes de moradores da capital registradas até quarta-feira, 69 eram de pacientes com comorbidades.

O boletim da Secretaria de Saúde aponta que as cardiopatias – distúrbios do coração – são as doenças mais comuns entre os infectados na capital federal. Elas também são as que mais aparecem nos casos de óbito.

“Quase sete em cada dez pacientes que morreram de Covid-19 no DF tinham problemas cardíacos”, diz a secretaria.

Em seguida, aparecem os distúrbios metabólicos – como diabetes –, as pneumopatias – distúrbios no pulmão – e a obesidade. Veja lista abaixo:

  1. Cardiopatias: 500 pacientes
  2. Distúrbios metabólicos: 273 pacientes
  3. Pneumopatias: 180 pacientes
  4. Obesidade: 115 pacientes
  5. Baixa imunidade: 57 pacientes
  6. Nefropatias (distúrbios nos rins): 35 pacientes
  7. Doenças hematológicas (distúrbios sanguíneos): 14 pacientes
  8. Outros: 115 pacientes

Evolução do coronavírus no DF

Análise de testes rápidos no Distrito Federal — Foto: Secretaria de Saúde/Divulgação

Análise de testes rápidos no Distrito Federal — Foto: Secretaria de Saúde/Divulgação

O ritmo de evolução do novo coronavírus tem acelerado na capital nos últimos dias. Em uma semana, o número de casos cresceu 65%. No último dia 13 de maio, era, 3.192. Sete dias depois, esse número já havia subido para 5.271.

O total de mortes também aumenta mais a cada dia. No mesmo período, o aumento foi de 52%: de 48 para 73 óbitos. Segundo a SES-DF, a taxa de letalidade na capital está em 1,5%.

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Secretários de Saúde questionam protocolo sobre cloroquina e pedem união

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Em nota, os secretários de Saúde afirmam que o próprio protocolo lembra que não há comprovação científica da eficácia da cloroquina

Coronavírus: secretários afirmaram que o uso da cloroquina é responsabilidade total do Ministério da Saúde (Alessandro Dahan/Getty Images)

O Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass) questionou em nota divulgada na noite de quarta-feira o protocolo do Ministério da Saúde sobre o uso do medicamento cloroquina nos estágios iniciais do covid-19 e pediu união entre os três níveis de governo –federal, estadual e municipal– no combate à pandemia do novo coronavírus.

Na nota, os secretários de Saúde afirmam que o próprio protocolo sobre o uso da cloroquina nos estágios iniciais da doença lembra que não há comprovação científica da eficácia do medicamento contra a enfermidade respiratória causada pelo novo coronavírus e diz que o documento é de responsabilidade total do Ministério da Saúde, não tendo sido discutido com Estados e municípios.

“O Conass reafirma sua posição de pautar-se, sempre, pelo respeito às melhores evidências científicas”, afirma a nota. “É sabido, e o mencionado documento assim expressa, que não há evidências científicas que sustentem a indicação de quaisquer medicamentos específicos para o Covid-19. Assim, repousa sobre o médico a responsabilidade da prescrição, conforme já dispôs o Conselho Federal de Medicina.”

A nota questiona ainda por que o Ministério optou por discutir o uso da cloroquina no tratamento do Covid-19 e não outras questões ligadas à pandemia.

“O Conass insiste na importância de se prosseguir com a discussão junto ao gestor federal do SUS (Sistema Único de Saúde) sobre temas que se relacionam diretamente à estratégia de enfrentamento à pandemia de modo tripartite. Por que estamos debatendo a cloroquina e não a logística de distanciamento social? Por que estamos debatendo a cloroquina ao invés de pensar um plano integrado de ampliação da capacidade de resposta do Ministério da Saúde para ajudar os Estados em emergência?”, indaga.

“O entendimento do Conass é o de que precisamos unir forças em um projeto único, pactuado, dialogado com as necessidades de cada região do país, com as dificuldades de cada unidade federativa, bem como das capitais e demais municípios.”

O protocolo sobre uso da cloroquina nos estágios iniciais do Covid-19, divulgado na quarta-feira, atendeu um desejo pessoal do presidente Jair Bolsonaro e aconteceu sob a gestão do ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, após a saída de dois titulares da pasta em um mês em meio a divergências com Bolsonaro sobre o enfrentamento à pandemia.

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Saúde

Coronavírus: 511 profissionais de saúde estão infectados no DF; 84,5% são da rede pública

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Servidores contaminados atuam em 16 hospitais público e seis UPAs. Sindicato pede ‘atenção’.

Profissional aplica teste rápido para diagnóstico de coronavírus — Foto: Marcos Sanches/Secom

O Distrito Federal tem 511 profissionais de saúde infectados pelo novo coronavírus. Do total, 432 (84,5%) são servidores da rede pública. As informações foram confirmadas pelo Instituto de Gestão Estratégica em Saúde (Iges-DF) e pela Secretaria de Saúde (SES).

Segundo o levantamento, os servidores infectados atuam em 16 hospitais e seis Unidades de Pronto Atendimento (UPA) da capital. Ao todo, 35 mil profissionais atendem na rede pública do DF, entre médicos, enfermeiros, técnicos e assistentes.

A presidente do sindicato dos servidores da Saúde (SindSaúde), Marli Rodrigues, disse que a situação precisa ser avaliada com atenção.

“É, sem a menor dúvida, uma fragilidade no sistema que merece atenção dos órgãos governamentais.”

Onde estão os casos?

De acordo com o levantamento, apenas dois hospitais públicos não haviam registrado casos de coronavírus entre servidores até esta terça (19): o Hospital São Vicente de Paulo e o Hospital Regional de Sobradinho.

Já as unidades mais afetadas são os Hospital Regional de Ceilândia e a UPA de Samambaia. Veja abaixo:

  1. Hospital São Vicente de Paulo: 0
  2. Hospital Regional de Sobradinho (HRS): 0
  3. Hospital de Base: 61 servidores infectados
  4. Hospital Regional de Santa Maria (HRSM): 32 servidores infectados
  5. Hospital Regional de Ceilândia (HRC): 86 servidores infectados
  6. Hospital Regional de Taguatinga (HRT): 42 servidores infectados
  7. Hospital Regional de Samambaia (HRSam): 22 servidores infectados
  8. Hospital Materno Infantil (HMIB): 17 servidores infectados
  9. Hospital da Criança de Brasília (HCB): 17 servidores infectados
  10. Hospital de Apoio de Brasília (HAB): 2 servidores infectados
  11. Hospital Regional da Asa Norte (Hram): 8 servidores infectados
  12. Hospital Regional de Brazlândia (HRBRaz): 1 servidor positivo e 1 aguardando resultado
  13. Hospital Regional do Gama (HRG): 19 servidores infectados
  14. Hospital Regional do Guará (HRGu): 29 servidores infectados
  15. Hospital da Região Leste (HRL), antigo Hospital Regional do Paranoá: 3 servidores infectados
  16. Hospital Regional de Planaltina (HRPL): 4 servidores infectados
  17. UPA de Ceilândia: 3 servidores infectados
  18. UPA de Sobradinho: 5 servidores infectados
  19. UPA de São Sebastião: 12 servidores infectados
  20. UPA de Samambaia: 58 servidores infectados
  21. UPA do Número Bandeirante: 7 servidores infectados
  22. UPA do Recanto das Emas: 4 servidores infectados

Servidores reclamam

Em meio à pandemia e o alto índice de colegas infectados, os profissionais da rede pública reclamam das condições de trabalho. Eles alegam que faltam Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) adequados para o enfrentamento à doença.

Em áudio (ouça acima), uma servidora da Secretaria de Saúde, que preferiu não se identificar, detalha a situação dos funcionários na linha de frente e demonstra preocupação diante da falta de itens básicos, como toucas e máscaras cirúrgicas.

Ao G1, uma servidora da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Samambaia, que tinha 58 casos até terça, afirmou que os profissionais da unidade estão trabalhando em estado de alerta no último mês. Na última segunda-feira (18), uma técnica de enfermagem da UPA foi internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital particular da capital, por conta do coronavírus.

Entrada da ala reservada para pacientes com coronavírus na UPA de Samambaia, no DF — Foto: Arquivo pessoal

Entrada da ala reservada para pacientes com coronavírus na UPA de Samambaia, no DF — Foto: Arquivo pessoal

O que dizem os gestores

Questionados pela reportagem, a Secretaria de Saúde e o Instituto de Gestão Estratégica em Saúde (Iges-DF) afirmaram que todos os profissionais que testaram positivo para a Covid-19 foram afastados e só voltam para o trabalho após cumprirem quarentena.

Também negam que a falta de EPIs aos profissionais de saúde. “Luvas, capotes, protetores faciais, álcool gel e macacões estão sendo distribuídos frequentemente para garantir a proteção dos profissionais, conforme os protocolos da lei de biossegurança.”

O Iges-DF, que administra as Unidades de Pronto Atendimento da capital, disse ainda que “tem realizado assistência emocional e psicológica aos colaboradores”.

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