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quarta-feira, 20/05/2026

Desafios no atendimento para crianças com problemas no coração no Brasil e no mundo

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Em Brasília

CLÁUDIA COLLUCCI
FOLHAPRESS

Mais de 90% das crianças que vivem em países com recursos limitados enfrentam grandes dificuldades para receber diagnóstico e tratamento adequados para problemas no coração desde o nascimento.

Esse alerta veio de um relatório recente da Federação Mundial do Coração, apresentado durante o World Heart Summit em Genebra, na Suíça. O Brasil está entre os países que enfrentam grandes desigualdades regionais no cuidado cardíaco infantil.

Problemas no coração presentes desde a gestação afetam aproximadamente 1 em cada 50 recém-nascidos no mundo. Em 2023, cerca de 2,3 milhões de crianças nasceram com essa condição, e pelo menos um terço precisará de cirurgia no primeiro ano de vida.

Sem tratamento rápido, as formas mais graves podem levar à morte de até 85% dos bebês.

Embora a ocorrência seja semelhante em países ricos e pobres, o acesso ao tratamento é muito desigual. A mortalidade infantil relacionada a esses problemas é quatro vezes maior em países com renda baixa e média do que em países desenvolvidos.

Krishma Kumar, cardiologista pediátrica do Instituto de Ciências Médicas Amrita, na Índia, afirmou que milhões de crianças estão morrendo de doenças que têm tratamento, e a sobrevivência depende do acesso a cuidados médicos de qualidade.

Faltam especialistas, leitos hospitalares, equipamentos e centros cirúrgicos para realizar procedimentos complexos. O diagnóstico muitas vezes é tardio, os serviços estão concentrados em grandes cidades, e há falta de transporte neonatal adequado, o que também acontece no Brasil.

Aqui, cerca de 30 mil crianças nascem anualmente com algum problema cardíaco congênito, segundo o Ministério da Saúde. Cerca de 40% delas precisarão de cirurgia no primeiro ano, um total de aproximadamente 12 mil crianças.

Esses problemas estão entre as principais causas de morte nos recém-nascidos no país, sendo que muitos óbitos poderiam ser evitados com diagnóstico precoce e cirurgia rápida.

Apesar de o SUS oferecer gratuitamente o teste do coraçãozinho ao nascer, a cobertura do atendimento ainda é desigual. Somente 20 estados e o Distrito Federal têm unidades habilitadas para cirurgias cardíacas pediátricas, com a maioria concentrada em São Paulo, Minas Gerais e Bahia. Muitas famílias precisam se deslocar por longas distâncias para buscar atendimento.

Nas regiões Norte e Nordeste, a falta de cirurgiões especializados e centros adequados gera filas e atrasos perigosos.

Marcelo Jatene, diretor da cardiologia pediátrica no InCor do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirmou que as desigualdades são conhecidas e existem no Brasil e mundialmente, embora diversos serviços brasileiros tenham parcerias internacionais para melhorar o cuidado.

Ele ressaltou a importância de uma estrutura nacional funcional. Tem havido diálogo com o Ministério da Saúde para melhorar processos, aumentar recursos e leitos. Um banco de dados nacional está sendo organizado para reunir informações sobre esses problemas.

Também existe um projeto do Proadi-SUS, coordenado pelo Hcor, que faz telemonitoramento de cirurgias cardíacas pediátricas em hospitais do Norte e Nordeste. A primeira cirurgia desse tipo foi realizada em Manaus no ano passado.

Esse projeto oferece orientação durante a cirurgia por vídeo, áudio e outros dados, além do acompanhamento pós-operatório, melhorando os serviços e organização.

O Ministério da Saúde espera que essa iniciativa reduza filas, qualifique equipes locais e diminua a dependência dos grandes centros do Sudeste.

Essas experiências brasileiras são destacadas no relatório como exemplos promissores para reduzir desigualdades. Outros exemplos incluem estratégias de telecardiologia para diagnóstico precoce em áreas remotas do Nordeste.

O uso da telemedicina pode ajudar a diminuir atrasos, ampliar o rastreamento neonatal e apoiar profissionais locais onde há poucos especialistas.

O relatório também destaca o aumento de adultos que nasceram com esses problemas, graças aos avanços na cirurgia e diagnóstico. No entanto, em países com renda média, muitos adultos têm sequelas por tratamento inadequado na infância.

No Brasil, o sistema de saúde ainda não está preparado para cuidar desses pacientes ao longo da vida, com transição difícil do atendimento pediátrico para o adulto e falta de ambulatórios especializados.

A federação recomenda que os problemas cardíacos congênitos sejam tratados como prioridade permanente de saúde pública, não apenas como doenças raras ou pediátricas. Entre as sugestões estão a expansão de centros cirúrgicos, fortalecimento do rastreamento neonatal, formação de especialistas e ampliação da telemedicina.

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