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terça-feira, 28/07/2026

Brasil avança no combate ao HIV, mas casos aumentam, diz Unaids

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CLÁUDIA COLLUCCI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)

Apesar de o Brasil ter bons resultados no combate ao HIV, o país está entre as 21 nações que tiveram aumento no número de novos casos entre 2010 e 2025, com crescimento superior a 20%.

Esses dados fazem parte de um relatório da Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids), divulgado durante uma conferência internacional realizada no Rio de Janeiro.

Embora as novas infecções e mortes por Aids estejam nos níveis mais baixos dos últimos 30 anos, o relatório destaca que a resposta mundial ao HIV está enfraquecida, principalmente devido à redução de 18% na ajuda internacional, de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025.

Os resultados variam bastante entre países. Sete países, como Quênia, Ruanda e Zimbábue, conseguiram reduzir as novas infecções em quase 80% desde 2010, enquanto Brasil, Paquistão e Filipinas apresentaram aumento.

Segundo o médico sanitarista Draurio Barreira, diretor do departamento de HIV/Aids do Ministério da Saúde, o aumento no número de casos refletido no relatório acontece principalmente porque a rede de testes foi ampliada, incluindo o uso de autotestes distribuídos por organizações comunitárias.

“Nos últimos anos, tivemos um pequeno aumento no número de pessoas diagnosticadas com HIV, mas, ao mesmo tempo, houve uma queda no número de pessoas com Aids”, explicou.

Ele ressaltou que esse é um indicador importante, pois mesmo com o aumento dos testes, o volume de novos casos não foi tão alto quanto esperado, sugerindo que muitas pessoas em maior risco já foram diagnosticadas.

A médica infectologista Beatriz Grinsztejn, presidente da IAS (International Aids Society), atribui a alta das infecções a obstáculos estruturais que ainda existem no país, mesmo com o acesso universal aos medicamentos antirretrovirais.

“Temos acesso aos medicamentos e insumos, mas ainda existem barreiras que dificultam o diagnóstico, o engajamento no tratamento e o uso contínuo do tratamento e da profilaxia pré-exposição (PrEP)”, afirmou.

Ela apontou que 30% das pessoas ainda recebem o diagnóstico de forma tardia, com o sistema imunológico muito debilitado, apesar de todos os recursos disponíveis.

Entre as causas dessas dificuldades estão o racismo, a homofobia, a transfobia, a pobreza e a insegurança alimentar. Por outro lado, estudos indicam que programas sociais como o Bolsa Família têm ajudado a reduzir mortes e hospitalizações por HIV, especialmente entre mulheres.

De acordo com Draurio Barreira, pela primeira vez desde os anos 1990, o número de mortes por Aids deve ficar abaixo de 10 mil em 2026, uma queda significativa em comparação aos números anteriores.

Outra conquista mencionada no relatório é a certificação da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), concedida em dezembro de 2025, que reconhece que o Brasil eliminou a transmissão do HIV de mãe para filho. O Brasil é o primeiro país com mais de 100 milhões de habitantes a alcançar essa meta.

Com cerca de 1 milhão de pessoas vivendo com HIV, o país já atingiu duas das três metas estabelecidas pela ONU para 95%: o reconhecimento do diagnóstico e a supressão viral. Porém, ainda falta ampliar o número de pessoas em tratamento antirretroviral.

O uso da PrEP cresceu 41% entre 2024 e 2025, passando de 165 mil para 233 mil pessoas. Dados recentes indicam que cerca de 230 mil pessoas usam PrEP no Brasil, o que representa mais do que o dobro da meta do Ministério da Saúde para prevenção.

O relatório também destaca desigualdades entre os estados brasileiros, sendo fundamental reduzir essas diferenças para garantir o acesso igualitário à prevenção.

O Programa Brasil Saudável (Unir para Cuidar), lançado em 2024, é um compromisso do governo para eliminar até 2030 14 doenças socialmente determinadas, incluindo o HIV. A iniciativa integra vários ministérios federais e une ações de saúde, combate à fome, direitos humanos, ciência e infraestrutura.

No financiamento, o Brasil está entre os mais de 55 países que ampliaram seu orçamento público para o HIV em 2025, com aumento estimado em até 10%.

Segundo a Unaids, em 2025 cerca de 22% das 41 milhões de pessoas vivendo com Aids não estavam em tratamento, e quase metade das crianças com HIV não teve acesso à terapia antirretroviral. No total, cerca de 570 mil pessoas morreram por doenças relacionadas à Aids naquele ano.

A diretora-executiva da Unaids, Winnie Byanyima, destacou que a inovação só terá impacto se houver acesso amplo a tratamentos e prevenção a preços acessíveis: “Inovação sem acesso não é inovação, é injustiça. O verdadeiro sucesso depende de as pessoas que precisam dos medicamentos conseguirem obtê-los a um preço acessível”.

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