CLÁUDIA COLLUCCI
FOLHAPRESS
Um estudo apresentado na 26ª Conferência Internacional de Aids, realizada no Rio de Janeiro, indica que o HIV pode causar sinais de atividade do sistema imunológico no cérebro mesmo quando o vírus está controlado no sangue. Essa descoberta reabre o debate sobre o real significado do controle da infecção.
A pesquisa analisou 79 adolescentes sul-africanos que nasceram com HIV e que começaram o tratamento antirretroviral na infância. Esse estudo faz parte da coorte PAVE-80, uma das mais longas do mundo, com 16 anos de acompanhamento.
Os pesquisadores compararam amostras de sangue e do líquido cefalorraquidiano — fluido que envolve o cérebro e a medula espinhal — para investigar se, mesmo com o vírus controlado no sangue, ele pode continuar ativo no sistema nervoso central.
Entre os adolescentes que apresentavam o vírus suprimido no sangue (75% do total), 11 dos 59, cerca de 19%, mostraram sinais de resposta imunológica contra o HIV no líquido cefalorraquidiano. Esse grupo teve mais interrupções no tratamento ao longo do tempo.
Durante a apresentação, a autora do estudo, Shalena Naidoo, da Universidade de Stellenbosch, na África do Sul, destacou que essa coorte oferece uma oportunidade única para entender os efeitos do tratamento precoce e classificou o resultado como surpreendente.
Ela enfatizou que essa descoberta não significa que os adolescentes estão doentes, que o tratamento está falhando ou que seja necessário mudar a medicação.
O que se observa é que o sistema imunológico do cérebro pode agir diferentemente do que no sangue, mostrando que esses dois locais podem contar histórias biológicas distintas.
O exame utilizado detecta a presença de anticorpos contra o HIV, mas não determina se esses anticorpos são resultado de uma resposta antiga, transferência do sangue ou produção contínua dentro do sistema nervoso.
Além disso, a equipe identificou proteínas no sangue que indicam essa atividade no cérebro, o que futuramente pode facilitar a detecção por meio de exames menos invasivos que a punção lombar.
O estudo foi feito em um momento específico e não mostra se esses sinais indicam proteção, infecção antiga ou inflamação contínua, nem se afetam funções cognitivas.
Outro estudo anterior havia mostrado que tratar o HIV cedo reduz o risco de problemas cerebrais vinculados ao vírus, e exames de imagem já detectaram pequenas diferenças no cérebro de pessoas que nasceram com HIV, mas ainda não se sabe como isso se relaciona com a nova descoberta.
Para Naidoo, o principal ponto é que as estratégias para curar o HIV não podem ser avaliadas apenas pelo controle do vírus no sangue, já que o cérebro tem uma barreira que limita a entrada de alguns medicamentos, e células de longa duração ali podem esconder o vírus ou manter uma resposta imunológica.
“Se queremos uma cura e não apenas controlar o vírus, precisamos entender o que acontece no cérebro”, afirmou Naidoo.
Ela ressaltou que a terapia antirretroviral continua eficaz, com a carga viral no sangue sendo um importante indicador, mas que essa medida não conta toda a história do HIV no corpo.
O próximo passo da pesquisa é acompanhar esses jovens ao longo do tempo, analisando a relação entre esses sinais no cérebro, o desempenho em testes cognitivos e exames de imagem.
Para quem vive com HIV, a mensagem de Naidoo é de esperança: a terapia mudou o HIV de uma doença fatal para uma condição crônica controlável, e essa conquista permanece. O convite é para que cientistas e médicos olhem para além do que é mais fácil medir.
“Nosso objetivo não é apenas ajudar as pessoas a sobreviver, mas garantir que vivam vidas longas e saudáveis, considerando todos os aspectos da saúde, inclusive a cerebral”, concluiu a pesquisadora.
A repórter viajou a convite da IAS (International Aids Society)
