19.5 C
Brasília
quarta-feira, 18/03/2026




Tesouro compra de volta R$ 43,6 bilhões em títulos em dois dias, maior ação no mercado desde a pandemia

Brasília
nuvens dispersas
19.5 ° C
19.5 °
18.9 °
94 %
0kmh
40 %
qua
27 °
qui
26 °
sex
25 °
sáb
25 °
dom
22 °

Em Brasília

TAMARA NASSIF, MATHEUS DOS SANTOS E IDIANA TOMAZELLI
SÃO PAULO, SP E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

O Tesouro Nacional realizou duas recompras de títulos nesta terça-feira (17) para conter a alta das taxas de juros futuros, que vinham subindo devido à guerra no Irã.

Com essas compras recentes, o Tesouro já recomprou R$ 43,6 bilhões em apenas dois dias. Esse valor, em termos nominais, é maior do que a intervenção feita em 2020, quando as incertezas da pandemia do coronavírus causaram instabilidade no mercado. Naquele ano, o Tesouro recomprou R$ 35,56 bilhões em títulos ao longo de 15 dias.

Um relatório da Warren Rena mostrou que essa é a maior intervenção dos últimos 13 anos. Em eventos anteriores, como as manifestações de 2013 ou a greve dos caminhoneiros em 2018, o Tesouro teve uma participação menor, considerando valores nominais.

Incluindo também vendas extraordinárias de papéis, a intervenção atual soma R$ 41,94 bilhões, contra R$ 33,1 bilhões na pandemia, segundo dados da Warren Rena.

Na manhã desta terça, foram realizados dois leilões extraordinários, com a recompra de 7,6 milhões de Letras do Tesouro Nacional (LTN) e 5 milhões de Notas do Tesouro Nacional (NTN-F), ambos títulos prefixados, num total de R$ 9,05 bilhões.

À tarde, o Tesouro fez duas operações em títulos NTN-Bs, que são ligados à inflação. Foram recomprados 1,63 milhão desses títulos, e 244 mil foram vendidos, totalizando R$ 7,076 bilhões. A meta era vender até 1,2 milhão e comprar até 4 milhões.

Essas ações seguem outras feitas na segunda-feira, quando o Tesouro recomprou R$ 27,5 bilhões em títulos prefixados.

Um representante do Tesouro explicou que a decisão de atuar é baseada em critérios técnicos para reduzir a volatilidade do mercado em um momento de grande incerteza devido à guerra no Irã.

No mercado, causa surpresa o fato de a intervenção acontecer na semana em que o Comitê de Política Monetária (Copom) decide sobre a taxa de juros. Normalmente, o Tesouro evita interferir neste momento para não parecer que o governo quer diminuir a pressão sobre as taxas de juros, já que a recompra dos títulos tende a reduzir ou aumentar menos as taxas.

Segundo um técnico ouvido, o Tesouro optou por uma abordagem mais ativa para tentar evitar custos maiores no futuro, caso o mercado apresente ainda mais problemas.

Esse integrante destacou que essa postura é diferente do que ocorreu em dezembro de 2024, quando o mercado perdeu referência devido à eleição presidencial nos EUA e à votação de medidas fiscais no Brasil. Naquela época, havia medo de que as medidas fossem muito enfraquecidas pelo Congresso.

Especialistas do mercado estão atentos para saber por quanto tempo o Tesouro continuará a atuar. Geralmente, o órgão intervém por alguns dias seguidos, mas essa decisão é discrecional, baseada na avaliação do mercado.

Até o momento, os agentes econômicos veem essas intervenções como legítimas para corrigir problemas pontuais no mercado, sem intenção de mudar a postura do Copom na reunião de quarta-feira.

“O Banco Central monitora as curvas de juros futuros, a atividade econômica, o hiato do produto, o câmbio e a inflação. Se a intenção fosse influenciar o Copom, a ação do Tesouro seria insuficiente”, afirma André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica.

Enrico Gazola, sócio-fundador da Nero Consultoria, concorda e aponta que a intervenção parece ser uma resposta tática ao mercado fragilizado, não uma tentativa deliberada de controlar a taxa no curto prazo.

Mesmo assim, a comunicação do Copom nesta semana precisará ser muito clara para evitar mal-entendidos ou a percepção de interferência na atuação do Banco Central.

O tom do comunicado será crucial para as expectativas do mercado sobre a taxa Selic, podendo gerar mais pressão ou alívio nas taxas de juros futuras.

Impacto nos juros futuros

Os leilões de terça-feira foram ofuscados pela ameaça de uma paralisação nacional dos caminhoneiros, motivada pelo aumento no preço do diesel.

A taxa do DI para janeiro de 2027 estava em 14,13%, subindo 0,11 ponto percentual em relação ao dia anterior. A taxa para janeiro de 2035 avançou 0,07 ponto percentual, para 13,78%.

O dólar fechou em queda de 0,58%, cotado a R$ 5,19, enquanto a Bolsa subiu 0,29%, atingindo 180.409 pontos.

Reportagens indicam que caminhoneiros estão organizando uma paralisação nacional para os próximos dias.

Viviane Las Casas, chefe de renda fixa da Valor Investimentos, afirma que essa situação lembra a crise de 2018, quando o governo precisou subsidiar o diesel e controlar os preços, o que gera pressão fiscal.

Ela alerta também para o risco inflacionário, caso a greve continue. “Na greve anterior dos caminhoneiros, houve choque inflacionário com falta de combustível e alimentos, elevando a inflação”, ressalta.




Veja Também