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sexta-feira, 17/07/2026

Setores afetados por tarifaço preveem perdas e tentam reverter medida

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Em Brasília

THIAGO BETHÔNICO E GABRIELA CECCHIN
FOLHAPRESS

Setores econômicos que não foram incluídos nas isenções do novo tarifaço anunciado pelos Estados Unidos já estão calculando as perdas que essa medida vai causar em empresas brasileiras. Associações e grupos do setor privado falam em tentar mudar a decisão, mas avisam que, se não houver uma solução rápida, as empresas perderão vendas e terão que demitir funcionários.

A Casa Branca anunciou uma tarifa de 25% na noite de quarta-feira (15). Alguns setores já sabiam que seriam afetados, outros tentaram negociar com as autoridades americanas, mas tiveram seus pedidos negados.

Um exemplo é a indústria de calçados, que considera a decisão do governo de Donald Trump um retrocesso em uma relação comercial construída ao longo de muitos anos.

A Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados) mostrou preocupação com os impactos da tarifa, dizendo que essa restrição dificulta muitas operações que estavam sendo retomadas desde a suspensão do último tarifaço.

O setor calçadista do Brasil vende para mais de 160 países, mas os Estados Unidos foram sempre o maior mercado, representando cerca de 20% das vendas.

Agora, a associação calcula que as empresas brasileiras vão perder competitividade para produtos de outros países, causando uma queda de 7,1% nas exportações totais de calçados do Brasil. Esse valor é 3,5 pontos percentuais pior do que a previsão anterior.

Este ano, o setor já exportou US$ 85 milhões (R$ 431 milhões) para os Estados Unidos – uma queda de 23% em comparação com 2025.

A nova tarifa de 25% se soma aos 10% já existentes sobre os produtos brasileiros. Segundo a Abicalçados, o total de 35% torna quase impossível continuar exportando para os EUA. Por isso, é provável que as empresas de certas regiões, como o interior de São Paulo e do Rio Grande do Sul, sejam afetadas nas vendas e precisem cortar empregos.

Haroldo Ferreira, presidente-executivo da entidade, explicou que o tipo de calçado exportado ao mercado americano é específico, feito conforme as preferências dos consumidores dos EUA, e por isso não é simples redirecionar esses produtos para outros países.

Mesmo assim, a Abicalçados segue trabalhando com autoridades brasileiras e americanas para tentar limitar as taxas e buscar alternativas que reduzam os efeitos da medida.

Já a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) afirmou que a tarifa aumenta a insegurança no comércio entre os dois países, pode elevar custos, reduzir a competitividade e afetar investimentos.

Os EUA são o principal destino das exportações brasileiras de máquinas e equipamentos, que totalizaram cerca de US$ 3,2 bilhões (R$ 16,2 bilhões) em 2025. A entidade espera que as diferenças sejam resolvidas por meio do diálogo entre Brasil e Estados Unidos.

A Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia) criticou a tarifa extra sobre o etanol brasileiro, afirmando que a política do Brasil está de acordo com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Os EUA justificaram a decisão sobre o etanol com o argumento de que o Brasil limita o acesso do produto americano após acabar, em 2017, com um tratamento tarifário considerado justo entre os países.

A entidade disse que não existe acordo bilateral que obrigue o Brasil a dar tratamento tarifário especial ao etanol dos EUA e atribuiu a queda das exportações dos EUA para o Brasil principalmente ao aumento da produção nacional, especialmente de etanol feito de milho.

A Abvtex (Associação Brasileira do Varejo Têxtil), que representa mais de cem marcas de moda nacionais, também afirmou que o novo tarifaço prejudica a competitividade da indústria brasileira e destacou a importância do setor têxtil e de moda na geração de empregos e renda.

A CNI (Confederação Nacional da Indústria) avalia que a sobretaxa tende a aumentar as perdas que já vinham acontecendo nas exportações brasileiras para os EUA por conta dos tarifaços anteriores. A entidade disse que a nova medida aumenta a insegurança para empresas dos dois países.

No primeiro semestre deste ano, 20 dos 27 estados brasileiros já registraram queda nas exportações para os EUA, segundo levantamento da CNI. As vendas do Brasil para os Estados Unidos caíram 13%, o que equivale a US$ 2,6 bilhões (R$ 13,1 bilhões) em comparação com o mesmo período de 2025.

Essa redução foi puxada principalmente por bens industriais, como produtos semiacabados de ferro e aço, ferro fundido bruto, pasta química de madeira não conífera, óleos de petróleo e outros materiais semiacabados de ligas de aço.

Ricardo Alban, presidente da CNI, afirmou: “Não podemos economizar esforços para mudar essa situação e recuperar a relação que Brasil e Estados Unidos construíram”.

A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) classificou o novo tarifaço como “especialmente prejudicial”. Em nota, a entidade disse que a retaliação é resultado de uma diplomacia brasileira que, segundo a federação, causou “ruídos diplomáticos”, críticas ao governo americano e falta de alinhamento político com Washington.

Paulo Skaf, presidente da Fiesp, declarou: “O mercado dos EUA é o principal destino de produtos brasileiros de alto valor. Esse novo ‘pedágio’ para as exportações se soma aos desafios que nossas empresas enfrentam, como alta carga de impostos e juros altos”.

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