Isabela Palhares
São Paulo, FOLHAPRESS
O valor inicial que os professores das redes estaduais de ensino do Brasil recebem tem crescido nos últimos anos. No entanto, garantir um aumento durante a carreira continua sendo um problema para esses profissionais, conforme aponta um estudo do Movimento Profissão Docente.
A pesquisa, obtida com exclusividade pela Folha, revela que todas as 27 unidades da federação cumpriram o piso do magistério no último ano. Além disso, 25 estados pagaram salários iniciais acima do mínimo exigido.
Porém, o estudo identificou que em grande parte dos estados os aumentos salariais ao longo da carreira não são expressivos ou demoram muito tempo para ocorrer, o que desmotiva os professores a permanecerem na sala de aula.
Os dados foram coletados junto às Secretarias de Educação e nas leis estaduais. As redes estaduais são responsáveis por cerca de um terço dos 2,4 milhões de professores da educação básica no país.
Em 2025, o salário inicial médio para uma jornada de 40 horas semanais foi de R$ 6.212,36, representando um aumento de 6,22% em relação a 2024 e 28% a mais que o piso nacional. O Rio de Janeiro pagou exatamente o piso, R$ 4.867,77, enquanto Minas Gerais pagou R$ 0,20 a mais que o mínimo.
Mato Grosso do Sul tem o maior salário inicial, de R$ 13.007,12, seguido pelo Maranhão, com R$ 8.452,03.
Haroldo Rocha, coordenador do Movimento Profissão Docente, destaca que “o salário inicial melhorou nos últimos anos, com ganhos reais além da inflação, mas ainda é insuficiente. Para atrair jovens talentosos, é fundamental que haja aumentos previstos durante a carreira”.
O estudo aponta que a média de crescimento salarial ao longo da carreira nas redes estaduais foi de 49% em 2025, ou seja, o aumento máximo que um professor pode alcançar é menos da metade do salário inicial da profissão.
Segundo dados da OCDE, países reconhecidos pela qualidade da educação, como Canadá, Luxemburgo, Áustria e Japão, possuem variações salariais de 72,7% a 110,2% para professores com formação equivalente ao ensino médio brasileiro.
Mais da metade dos estados brasileiros (14) oferecem variações salariais inferiores a um terço. Piauí e Santa Catarina chegam a ter um aumento final inferior a 3% em relação ao salário inicial — estados governados por Rafael Fonteles (PT) e Jorginho Mello (PL), respectivamente.
Apenas cinco estados estão dentro dos parâmetros dos países com bons resultados educacionais: Mato Grosso do Sul, Ceará, Tocantins, Amapá e São Paulo. Contudo, Haroldo Rocha comenta que é importante que o professor consiga realmente alcançar o topo salarial. Por exemplo, em São Paulo, ninguém atingiu o maior salário previsto no plano de carreira.
Ele alerta que “alguns estados apresentam variações salariais de 150%, mas muitas vezes o professor nunca alcança o topo, causando frustração. Por isso, é necessário criar planos de carreira com progressão real que motivem os docentes a se dedicar e continuar na profissão”.
O ideal é que a progressão salarial significativa ocorra dentro de 15 anos de trabalho. Haroldo Rocha afirma: “não basta apenas o aumento inicial, é necessário que haja etapas para o professor avançar. Isso ajuda a atrair novos profissionais e a manter quem já está na carreira”.
Em Mato Grosso do Sul, mesmo com a maior remuneração final, os professores têm um aumento de 54% após 15 anos, sendo necessário em média 34 anos para chegar ao salário máximo.
No Ceará, os professores alcançam um aumento de 89% após 15 anos. “Ter salários iniciais e finais altos não é suficiente, é preciso que existam etapas intermediárias para o professor se motivar ao longo do tempo”, finaliza Haroldo Rocha.
O estudo ainda ressalta a necessidade de critérios eficazes para a progressão na carreira. O mais comum é considerar a titulação acadêmica, como mestrado e doutorado, mas menos de 5% dos professores possuem esses títulos, e eles têm pouco impacto direto no ensino em sala.
Haroldo Rocha defende que as redes estaduais implementem avaliações de desempenho mais eficientes, valorizando a prática docente. Atualmente, 22 redes usam critérios de avaliação, porém muitos são burocráticos. “O ideal seria avaliar como o professor atua no dia a dia em sala de aula”, conclui.

