ANDRÉ FLEURY MORAES
O aumento das rotas de tráfico de drogas perto do litoral do Brasil está preocupando os responsáveis pelos portos. Para combater esse problema, vários portos estão investindo em inteligência artificial, drones subaquáticos e mudando o uso de contêineres para pallets nas exportações de frutas.
Sete portos disseram à Folha que adotaram medidas para evitar a saída de drogas pelas exportações. Essas ações acontecem depois que o controle no porto de Santos ficou mais rigoroso.
Nos últimos anos, as prisões de cocaína nos portos brasileiros têm diminuído. Em 2021, foram apreendidas 46 toneladas dessa droga em portos, embarcações e rios do país. Em 2025, esse valor caiu para 15 toneladas.
Essa redução pode ser resultado da mudança nas estratégias dos traficantes, de acordo com investigadores.
Agora, eles enviam cargas menores, que são mais difíceis de detectar, ao invés de grandes quantidades de uma só vez, para diminuir o risco de perdas em caso de apreensão. Também começaram a usar embarcações diferentes, como barcos de pesca e veleiros.
A Receita Federal não revela quais portos são fiscalizados com prioridade, pois essa informação pode ser usada pelos criminosos para mudar suas rotas e métodos.
O porto de Paranaguá (PR), o maior do Sul, afirmou que seu terminal de contêineres é muito visado, mas que ações como o uso de cães farejadores e monitoramento constante reduziram em 85% as apreensões entre 2019 e 2025.
Essa rota é uma das mais antigas do tráfico, que agora avança também em Santa Catarina.
O porto de Imbituba (SC) comprou um drone que opera debaixo da água para ajudar a Polícia Federal em inspeções nos navios. Esse equipamento ajuda a encontrar drogas escondidas nas partes submersas das embarcações, mesmo em condições de baixa visibilidade e com muitas algas.
Em abril, o porto firmou um acordo com a Polícia Federal para fortalecer a cooperação nas investigações, uma ação inédita no país.
O porto de Navegantes (SC) investiu em scanners com inteligência artificial que inspecionam cerca de 120 caminhões por hora, aumentando a capacidade de fiscalização para 4.000 caminhões por dia.
Em Itajaí (SC), o terminal adquiriu drones, lanchas de patrulha, armamentos e implementou sistemas de inteligência, além de realizar treinamentos específicos.
Rotas no Norte e no Nordeste também preocupam, principalmente devido à menor estrutura dos portos e ao avanço das facções criminosas nessas áreas.
Em Natal, foi reduzida a exportação de frutas por contêineres, utilizando-se mais pallets, que passam por uma conferência rigorosa antes do envio, garantindo maior controle das cargas.
O porto de Suape, em Pernambuco, acompanha com atenção as mudanças no crime organizado no Nordeste, mantendo um sistema de segurança baseado em tecnologia, treinamento, inteligência e cooperação.
Fortaleza mantém protocolos rigorosos de controle e está modernizando seu sistema de vídeo monitoramento para ampliar a vigilância.
O porto de Salvador criou o Centro Integrado de Segurança Pública Portuária, que aprimora a atuação da Guarda Portuária e outros órgãos, sendo o primeiro centro desse tipo no país.
Especialistas afirmam que o tráfico se adapta tanto nas rotas de origem quanto nos destinos internacionais. Para a pesquisadora Isabella Vianna Pinho, que estudou o mercado global da cocaína, a droga que antes ia direto para a Europa agora é muito apreendida também na África e na Ásia.
