PEDRO S. TEIXEIRA
FOLHAPRESS
A Polícia Federal encontrou um comprovante bancário no valor de R$ 7 milhões na casa de Manoel Mendes Rodrigues, conhecido como miliciano e bicheiro. As investigações indicam que ele foi contratado no Rio de Janeiro pelo banqueiro Daniel Vorcaro para perseguir ex-funcionários do Banco Master entre os anos de 2024 e 2025.
Rodrigues, que se apresentava como “empresário do jogo do bicho”, era conhecido nas mensagens de Vorcaro como membro da “Turma do Rio”. No Rio de Janeiro, ele era chamado de Manolo Dom e tinha sociedade com o bicheiro foragido Bernardo Bello. Gravações obtidas pela PF mostram que o grupo liderado por Dom intimidou antigos empregados de Vorcaro.
O relatório da investigação ainda não esclareceu a origem do dinheiro encontrado. Na residência de Dom, localizada em condomínio fechado na zona oeste do Rio, foram apreendidos também um cheque de R$ 40 mil, cinco cheques de R$ 25 mil, dois celulares e um computador.
As apurações indicam que os contatos entre Vorcaro e Dom eram feitos por meio de Luis Phillipe Mourão, funcionário do banqueiro conhecido nas conversas como Sicário (matador de aluguel).
O pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, repassava mensalmente R$ 1 milhão a Mourão, valores depois distribuídos para o grupo do Rio. Segundo a PF, esses pagamentos eram feitos por meio de notas fiscais falsas e empresas falsas com laranjas.
A defesa de Vorcaro foi procurada, mas não comentou. Os advogados de Dom não foram localizados.
Uma das ações lideradas por Dom foi contra o chefe de cozinha e o capitão do Solar I, barco de Daniel Vorcaro ancorado em Angra dos Reis (157 km do Rio), conforme diálogos encontrados no celular de Vorcaro. O banqueiro suspeitava que os funcionários gravavam festas no barco e pediu que o cunhado, Fabiano Zettel, e Mourão tomassem providências.
Em mensagem de 1º de junho de 2024, Mourão avisou que iria encontrar os ex-funcionários acompanhado de “PF” – policiais que teriam sido corrompidos – e do “pessoal do Rio”.
“Acho que tem que ser os dois. Bom dar uma bronca no chef de cozinha primeiro, o outro já vai se assustar”, escreveu Vorcaro a Mourão.
No dia 4 de junho de 2024, o capitão do barco, Luis Felipe Woyceichoski, negou que houvesse gravações quando foi abordado pelo grupo.
“Posso falar da minha parte: confidencialidade. Nós temos nossas festas e eu tomo muito cuidado”, disse a Dom, em conversa gravada e enviada a Vorcaro.
Em 11 de julho, a empresa Prime U, que administra o barco, demitiu Woyceichoski. No encontro de demissão, ele relatou que sua família e os demais funcionários foram ameaçados por sete homens. A PF obteve o áudio, mas ainda busca identificar os outros envolvidos.
Durante depoimento, Woyceichoski afirmou que registrava imagens e anotava no diário de bordo situações que colocavam o barco e os passageiros em risco, que eram discutidas com a empresa. A ameaça ocorreu duas semanas após uma dessas reuniões.
O ex-chef do barco, Leandro Garcia, também foi ameaçado pela milícia. Ele pediu demissão em março de 2024 e estava trabalhando em um hotel em Angra dos Reis em junho do mesmo ano.
Dois homens, inclusive Dom, foram até o hotel e avisaram que tinham informações sobre a rotina do chef. “O senhor Daniel mandou a gente levantar tudo sobre você”, disse Dom. Ele mostrou um envelope com dados pessoais do chef: endereço, placa do carro.
Em 2026, durante a Operação Compliance Zero contra Daniel Vorcaro, Garcia reconheceu Mourão, o Sicário, como um dos homens que acompanharam Dom nessa abordagem.
A PF encontrou ainda ordens de Vorcaro para “pressionar” uma funcionária da atriz Monique Alfradique em mensagens no WhatsApp. “Empregada da Monique me ameaçando. É mole?”, enviou Vorcaro a Mourão em 19 de fevereiro de 2025.
Mourão perguntou o que fazer, e Vorcaro ordenou: “Puxa o endereço, tudo”.
Em seguida, Mourão enviou uma foto e um arquivo com dados pessoais da mulher, que trabalhou como diarista para a atriz. Os investigadores não informaram o motivo do desentendimento.
