CRISTINA CAMARGO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Marcelly Malta Lisboa nasceu em Mato Leitão, no interior do Rio Grande do Sul. Na adolescência, foi acolhida por freiras franciscanas que a ajudaram a estudar e se tornar enfermeira na Santa Casa de Porto Alegre, onde sempre sonhara trabalhar, inspirada pela tia que exercia a mesma profissão.
Enquanto trabalhava em hospitais, Marcelly também foi prostituta nas ruas e boates da capital gaúcha. Ali, conheceu travestis glamorosas e assistiu a shows incríveis, mas enfrentou também muita violência e preconceito.
Essa foi a origem da trajetória de Marcelly, que se tornou uma das primeiras ativistas pelos direitos trans e travestis no Rio Grande do Sul. Faleceu no sábado, 4, aos 75 anos, em Porto Alegre. A ONG Igualdade – Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul, criada por ela no final dos anos 1990, anunciou seu falecimento.
A ONG ressaltou que Marcelly foi uma mulher corajosa, forte e digna. Uma lutadora incansável pelos direitos da população trans e travesti do Brasil, que marcou sua história com resistência, acolhimento e a busca por uma sociedade mais justa e igualitária.
Em 2011, quando presidia o Conselho Municipal de Direitos Humanos de Porto Alegre, Marcelly conseguiu legalmente mudar seu nome no registro civil, uma vitória que abriu caminho para outras pessoas trans do país fazerem o mesmo.
Sete anos depois, em 2018, o Supremo Tribunal Federal reconheceu o direito dos transexuais de alterar sua identidade de gênero e nome sem precisar passar por cirurgia de redesignação sexual.
Na ocasião, Marcelly disse se sentir como se tivesse nascido de novo e expressou orgulho ao saber que outras travestis poderiam evitar constrangimentos e obter o direito de mudar seus nomes em seus documentos.
Nos anos 1990, Marcelly passou um tempo na Europa como trabalhadora sexual. Ela afirmou, em entrevista ao TravaTalk Podcast, que não foi o governo que lhe deu o que tem, mas sim a prostituição. Também relatou episódios de violência sofridos em prisões durante a ditadura militar, acusada injustamente de vadiagem em Porto Alegre.
De volta ao Brasil, Marcelly se destacou como profissional da saúde e líder entre as travestis da cidade, com conhecimento em prevenção e tratamento da Aids, especialmente por sua atuação no Grupo de Apoio à Prevenção da Aids (Gapa).
O falecimento de Marcelly foi lamentado por diversas organizações LGBTQIA+, que destacaram seu papel pioneiro. A Parada Livre de Porto Alegre declarou que ela abriu caminhos, enfrentou violências, ajudou a organizar uma nova geração de ativistas e transformou a própria vida em símbolo de luta e memória.
Toni Reis, diretor da Aliança Nacional LGBTI, ressaltou que Marcelly continuava ativa em sua defesa do direito de envelhecer com dignidade para todas as pessoas.
Ele afirmou que sua existência valeu cada esforço, cada viagem, palestra e diálogo, sempre em prol da dignidade humana.
A deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG) compartilhou que Marcelly havia tido uma reunião recente com sua equipe para planejar ações de empregabilidade para pessoas trans.
Marcelly sobreviveu à ditadura, foi uma das primeiras a combater o HIV/AIDS e um ícone dos movimentos trans no Brasil, deixando um legado que será lembrado por décadas.
Ela também ministrou cursos para agentes e delegados da Polícia Civil a convite do governo estadual. Em entrevista, Marcelly aconselhou jovens travestis e pessoas trans a estudarem e emocionou-se ao falar das homenagens recebidas ao longo da vida.
O velório acontecerá domingo, 5, das 7h às 12h, na Casa dos Conselhos, em Porto Alegre.
