21.5 C
Brasília
segunda-feira, 16/03/2026




Mercado espera corte menor nos juros por alta do petróleo

Brasília
nuvens quebradas
21.5 ° C
23.9 °
21.5 °
88 %
1kmh
75 %
seg
26 °
ter
23 °
qua
23 °
qui
25 °
sex
23 °

Em Brasília

NATHALIA GARCIA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

A instabilidade nos preços do petróleo por causa do conflito no Irã fez o mercado financeiro mudar um pouco a sua previsão sobre a diminuição dos juros básicos na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária). Agora, cresceu a expectativa de que a Selic, taxa principal de juros, seja reduzida em apenas 0,25 ponto percentual.

Antes do conflito no Oriente Médio, o consenso era de que o corte seria de 0,5 ponto percentual.

Algumas instituições ainda mantêm essa previsão, mas reconhecem que o Banco Central pode decidir por um corte mais cauteloso. Há até quem ache que a Selic pode não ser reduzida e ficar nos 15% ao ano, a maior taxa dos últimos quase 20 anos.

No dia 9, o preço do petróleo disparou quase 30%, chegando perto de US$ 120 por barril, devido à maior variação diária desde 1988. Depois de uma declaração do presidente dos EUA, Donald Trump, afirmando que a guerra estava quase terminada, os preços recuaram. No entanto, uma nova onda de ataques aumentou os preços para mais de US$ 100 por barril novamente. A volatilidade dos preços continua alta.

Fábio Kanczuk, diretor de macroeconomia do ASA e ex-diretor do Banco Central, destaca a incerteza sobre o tamanho do corte de juros. “Se o Copom fosse ontem, eu diria que o corte seria de 0,5 ponto. Se fosse hoje, de 0,25 ponto. Amanhã, pode voltar a 0,5 ponto”, comenta.

Ele ressalta que o Banco Central está acostumado a enfrentar choques nos preços do petróleo e a ajustar sua política conforme a situação. Porém, independente do ritmo da redução da Selic, ele espera uma pausa em setembro devido ao período eleitoral, para avaliar os rumos do país.

O tamanho do corte dependerá do primeiro passo. Antes da guerra, a previsão era que a Selic caísse para 12% ao ano. Com um corte inicial de 0,25 ponto, a taxa pode permanecer mais elevada.

Sérgio Goldenstein, sócio e fundador da Eytse Estratégia e ex-chefe do departamento de Operações do Mercado Aberto do BC, aposta em um corte de 0,5 ponto, considerando esse ritmo como cauteloso para a taxa Selic tão alta.

“Não faz sentido cortar só 0,25 ponto com uma Selic tão alta”, explica. “Não é acelerar, mas sim diminuir a pressão dos juros”.

Ele acredita que o Copom dificilmente não fará nenhum corte, pois isso significaria não começar a reduzir o alto nível de juros.

Na visão do economista, o Banco Central deve evitar uma reação mecânica apenas ao impacto imediato dos preços do petróleo e se preocupar com os efeitos secundários desse choque sobre a inflação.

Ele lembra que a meta de inflação tem uma margem de tolerância para acomodar choques como esse. A meta central é de 3%, com tolerância para até 4,5% ou para baixo até 1,5%.

Como a política de juros atua com defasagem na economia, o Copom já considera o comportamento da inflação para o terceiro trimestre de 2027. Neste prazo, Goldenstein vê que a política monetária pode ser menos restritiva, devido à perspectiva de crescimento econômico inferior a 2%.

O tamanho do ciclo de queda da Selic vai depender da duração e intensidade do impacto causado pela guerra. Se for curto, a taxa pode cair até 11,75% ao ano; se for prolongado, pode se manter perto de 13% ao ano.

Outro desafio para a Selic é o cenário político no Brasil e a atuação do câmbio conforme a reação dos investidores durante a eleição.

Pesquisa Datafolha apontou que a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) está próxima do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas eleitorais, com empate técnico no segundo turno.

Rafaela Vitória, economista-chefe do banco Inter, acredita que o Copom pode iniciar os cortes na Selic com uma redução de 0,5 ponto percentual, considerando os impactos dos juros na atividade econômica.

Ela cita a desaceleração do crédito, que afetou empresas como Raízen e Grupo Pão de Açúcar, e o aumento da inadimplência das famílias, que pode piorar com menos vontade dos bancos de assumir riscos.

Apesar do recente dado de inflação não ter sido tão favorável, Vitória ressalta que veio dentro do esperado para a época do ano. Em fevereiro, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) subiu 0,7%, com aumentos em educação e transporte. No acumulado de 12 meses, a inflação ficou em 3,81%.

Quanto aos efeitos da guerra no Irã, a economista acredita que o IPCA será mais afetado caso o conflito se prolongue. Ela considera que o pacote de medidas do governo Lula para controlar os preços dos combustíveis pode trazer mais prejuízos do que benefícios.

“Isso pode causar um risco fiscal que impacta o câmbio. Represar o aumento de combustível não elimina o impacto negativo na inflação. É uma medida populista que pode sair mais cara”, explica.

Ela lembra que desde a reunião anterior houve valorização do câmbio. As previsões indicam que o dólar para a próxima reunião do Copom ficará em R$ 5,20, contra R$ 5,35 na anterior.

Mesmo com expectativa de corte maior, Rafaela admite que o Copom pode optar por cautela e iniciar o ciclo com uma redução de 0,25 ponto, mas considera improvável que não haja corte algum.

Assim como em janeiro, o Copom terá quórum reduzido, com sete dos nove membros presentes. O governo ainda não anunciou os substitutos dos diretores Diogo Guillen (Política Econômica) e Renato Gomes (Organização do Sistema Financeiro e de Resolução), cujos mandatos terminaram no fim de dezembro de 2025.




Veja Também